segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Não há 'escalada da violência' em São Paulo; há um genocídio no Brasil - e que sempre esteve aí, aliás

Não há, nunca houve, uma "escalada da violência" em São Paulo. O que há, e sempre houve, é um índice constante, que desde 2010 se mantém estável, de uma média de 6,47 homicídios por dia na capital e na Grande São Paulo, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado.

No Brasil, mata-se mais que um massacre do Carandiru por dia: uma média de 137 mortes, contra 111 da tragédia no presídio paulista. Temos mais de um Realengo diário, embora o Realengo, pelas características que teve de um atirador contra crianças que estudavam, choque muito mais.

Estamos no terceiro lugar de um ranking da ONU que mediu os homicídios na América do Sul. Por ano, matamos mais do que se mata no Iraque ou que se matou nas guerras civis da Chechênia ou de Angola.

As manchetes diárias, portanto, de que "10 foram mortos nesta madrugada em São Paulo" - neste 5 de novembro em que escrevo foram 4 - estão dentro da média de assassinatos que a região metropolitana enfrenta desde 2010. Mas a insegurança que se sente nas ruas, claro, tudo tem a ver com a sensação de insegurança - essa, aguçada pela mídia, que nunca se interessou, em outros momentos, a mostrar que essa média é assustadora por si só, haja ou não policiais entre as vítimas.

Foi preciso que a polícia matasse um publicitário inocente e que criminosos assassinassem uma garota em Higienópolis para que esses números, que sempre estiveram por aí, chamassem a atenção da mídia e da sociedade para o genocídio que se vive no Brasil. Um genocídio que, aliás, tem cor e classe social. Enquanto de 2002 a 2010 a taxa de homicídios de brancos (que já era bem menor que a de negros) caiu de 20,6 para cada 100 mil habitantes para 15, a de negros aumentou de 30 para 35,9.

Desde que começou a chamada "guerra entre agentes de segurança e criminosos", todos os dias, o número de mortos em SP é manchete, compondo uma engrenagem que leva ao medo, que cobra ações, que gera um combate equivocado e distorcido da questão da segurança pública.

É nessas horas - em que o pânico é vendido para a população e que os dois principais partidos do país brigam (pela mídia) sobre se houve ou não oferta de uma instância para ajudar a outra - que as políticas imediatistas são postas em prática para que a população sinta que tem alguém se mexendo.

E aí, meu amigo, a corda sempre arrebenta pro lado mais fraco.

Embora a conta de "Tropa de Elite 2" (de que, num futuro não muito distante, toda a população brasileira estará atrás das grades) seja um sofisma, estamos caminhando para um modelo de encarceramento absurdo. Enquanto a população brasileira cresceu 12,5% entre 2000 e 2010, de acordo com dados do IBGE, o número de presos no Brasil nesses mesmos 10 anos saltou 113,2%, segundo dados do Infopen, do Ministério da Justiça.


Enquanto política de segurança pública for botar gente na cadeia e matar (só os que reagem - sic), ao invés de combater na fonte o problema - a causa da criminalidade nesse país rico e insuportavelmente desigual -, estaremos com um balde d'água tentando conter um incêndio na floresta amazônica. E quando as decisões sobre o que fazer ainda estão no calor de um factoide (o que diz que há "escalada da violência" num lugar que sempre foi violento), será como botar em pauta no Congresso a redução da maioridade penal sempre que um menor é flagrado cometendo um crime. Como sabemos, nessas ocasiões, o debate sempre fica comprometido.

E, nesse caso, em que falamos de combate ao crime porque "a violência em São Paulo está assustadora" - sem esclarecer que ela sempre esteve - não tem jeito: o debate também está comprometido.

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* Aqui, as médias diárias de pessoas assassinadas na Grande São Paulo, por dia, a cada trimestre (Fonte: SSP/SP)
2010/1 - 7,85
2010/2 - 6,5
2010/3 - 5,44
2010/4 - 6,38

2011/1 - 5,65
2011/2 - 6,04
2011/3 - 6,25
2011/4 - 6,6

2012/1 - 6,11
2012/2 - 7,14
2012/3 - 7,22

Média geral: 6,47