quarta-feira, 23 de maio de 2012

Críticos de repórter da Bahia agem, mesmo sem perceber, com o mesmo comportamento que ela teve

Raphael Prado
Do Rio de Janeiro, RJ

Quando criei este blog, fiz uma promessa para mim mesmo: ele não seria opinativo. Primeiro porque acredito na ideia do jornalismo como retrato - que, mesmo parcial desde a escolha da pauta e das palavras no texto, é uma radiografia de um acontecimento. Caco Barcellos sempre ensinava a mim e aos demais pupilos: "o repórter reporta". Além disso, como hoje em dia todo mundo pode falar o que tem na mente - e é estimulado a isso o tempo todo pelas perguntas "O que você está pensando?" das redes sociais -, noto que vivemos numa sociedade com excesso de opiniões e a minha seria apenas mais uma desimportante delas.

Mas hoje vou sucumbir à tentação.

Meus amigos mais próximos sabem e, aos demais, revelo agora: estou escrevendo um livro sobre criminalização da pobreza. Não tenho prazo. Pode sair ainda em 2012, pode ser pra 2014, talvez só 2063. O que faço é juntar casos e mostrar como o preconceito de classe torna praticamente impossível a solução de um de nossos dramas maiores nesses tempos em que a economia (parece que) vai bem: a desigualdade social. Preconceito que vem da sociedade, do Estado (através da polícia ou da justiça) e da mídia, que o reforçam na sociedade, que pauta polícia, justiça e mídia, que reforçam na sociedade... numa bola de neve que não termina e nem terminará se não houver um basta em alguma das rodas dentadas dessa engrenagem.

Pretendo não fazer juízo de valor sobre o que ocorreu na Bahia, embora o texto, por si só, deixe claro o que penso. Para quem não sabe, a repórter entrevista dentro de uma delegacia um acusado de roubo e estupro. O jovem confessa a tentativa de roubo, mas nega, com lágrimas no rosto, que tenha tentado estuprar a vítima. "Não estuprou, mas queria estuprar", afirma a repórter. Depois, ela debocha quando o acusado confunde exame de corpo delito com exame de próstata, zombando da ignorância do garoto (o vídeo está aqui, no YouTube).

Pois bem. Em primeiro lugar, o que essa repórter faz de maneira explícita e que assustou tanta gente é feito todos os dias, nas entrelinhas que passam quase despercebidas pelo público, em grandes jornais, revistas e outras emissoras de TV. E não é exclusividade dos programas "mundo cão". Está presente quando a televisão julga - e condena - um "suspeito" ou "acusado" utilizando o termo "bandido", que é escandalosamente preconceituoso. Está no repórter que ouve a versão do policial e não se dá ao trabalho de perguntar ao acusado o seu lado da história - sob o argumento inacreditável de que "a autoridade é fonte oficial". Como se já não tivéssemos tantos casos de erros de "autoridades" ou como se ouvir todos os lados não fosse obrigação do jornalista que, nessa situação, argumenta que "o cara é 'bandido', vai mentir". Seguindo esse raciocínio, todos os criminosos presos pela polícia deveriam ir direto para a cadeia, sem chance de defesa, sem processo penal - imagine o quanto o Estado economizaria esvaziando todas as Defensorias, Tribunais e órgãos judiciais! (fique clara a ironia).

A criminalização da pobreza está quando o mais importante jornal do país vai a uma festa de periferia acompanhado da polícia para presenciar o fim da diversão onde ocorre, segundo a publicação, "livre consumo de drogas e prostituição" - que, se caracterizarem crime (porque consumo de drogas não é crime, mas sim a venda), devem realmente ser combatidos. E não só lá. Ou será que "consumo de drogas (sic) e prostituição" não acontecem na Zona Sul do Rio de Janeiro ou no Itaim Bibi, área nobre de São Paulo? Nessa mesma capa, o repórter pergunta a um DJ: "Boa parte do funk tem bastante apelo sexual e até apologia a drogas. O que você acha?". Como se esses elementos não estivessem presentes nas músicas dos Rolling Stones ou se a famosa "Overdose de Cocada/É cocada boa", de Bezerra da Silva, falasse realmente do doce feito de coco. Samba, aliás, que hoje está nas casas noturnas mais caras do país mas que já passou, décadas atrás, pelo mesmo preconceito de classe que hoje é direcionado ao funk, rap, hip hop, as músicas dos morros e favelas.

A mais importante reação sobre o que houve na Bahia partiu justamente de jornalistas baianos: um abaixo-assinado repudiando a situação e conclamando autoridades a tomarem providências - e que eu assinei. O Ministério Público Federal mexeu-se e cobrou explicações. A emissora também agiu: anunciou a demissão da repórter, como se coubesse só a ela - e não a uma equipe toda e a uma empresa de concessão pública - a transmissão do preconceito.

O que houve de reação ao caso, no entanto, chama a atenção pela forma. Comemorações pela demissão da repórter, quase tão esdrúxulas quanto o comportamento dela própria na delegacia, perpetuam justamente o que se combate por esses jornalistas que cobram mais profissionalismo dos colegas. O jornalismo-justiceiro, que ganhou até contornos de humor por parte de programas que enfiam o microfone na boca de um deputado ou senador cobrando explicações sobre polêmicas no Congresso, é um desserviço para a sociedade, que, triste e lamentavelmente, vai aos poucos se tornando mais desinformada e fascista, exigindo uma punição dura à repórter, com a mesma dose do espírito justiceiro que está exatamente em questão.