quarta-feira, 4 de abril de 2012

Mídia discute descriminalização de drogas de maneira ridícula, diz documentarista canadense

Raphael Prado
De Nova York, EUA

A campanha eleitoral de 2012 vem chegando e daqui a pouco começam - se já não começaram - a pular na mídia três temas que a mídia adora, porque são muito fáceis de se "discutir" de uma maneira maniqueísta: aborto, pena de morte e drogas. Na concepção de muita gente que dispara abobrinhas sobre o assunto, não há alternativa: ou você é contra ou a favor.

"The Union: The Business Behind Getting High" (O Sindicato: os negócios por trás das drogas, em tradução livre) é um filme de 2007 que tenta quebrar esses paradigmas. Anos antes de o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso entrar na discussão com "Quebrando o Tabu", filme de 2011 de Fernando Grostein Andrade, os cineastas canadenses Brett Harvey e Adam Scorgie - que também produz e apresenta o documentário - queriam responder a uma questão: como essa indústria de bilhões de dólares aprendeu a sobreviver, apesar de ser ilegal?

O pai de Scorgie era dono de uma casa noturna em British Columbia, oeste do Canadá. Lá, ele conheceu os vendedores diretos, do varejo da droga, para quem queria apenas se divertir. E através deles, acompanhou os negócios por trás dessa indústria altamente lucrativa.

Abaixo, a primeira parte do filme em português - ele está disponível na íntegra no YouTube. Neste link, em melhor definição e um único arquivo, mas sem legendas.


A quem interessa a proibição? Qual o motivo para que essa política, implementada na década de 60, seja mantida até hoje sem ter sido revista?

Um a um, os documentaristas questionam os argumentos espalhados até hoje pelas autoridades para manter a proibição. A começar do famoso "maconha mata neurônios". Provam, por exemplo, de maneira muito simples, que o estudo que levou a essa conclusão utilizou macacos de laboratórios e os obrigou a aspirar a fumaça da erva sem fornecer oxigênio. Aconteceu o que acontece com qualquer célula do corpo sem oxigênio: morte.

"Há pessoas usando a mídia em geral nesse debate de uma forma muito... ridícula", critica Scorgie. Ele acha que ainda falta muito para a sociedade avançar nessa discussão. "Há interesses comerciais envolvidos, moralidade, e vários políticos preocupados com seus próprios negócios. 'Como serei eleito se eu defender isso?'", diz.

Mas ele reconhece avanços: "Quando nós fizemos "The Union", as pessoas ficavam impressionadas porque nós tínhamos ex-policiais falando da proibição [das drogas] no Canadá. E agora você pode ver ex-presidentes, economistas, grupos de discussão vindo à público e dizendo 'o que nós estamos fazendo não está funcionando, nós temos que buscar alternativas'".

Leia abaixo entrevista que fiz por telefone com Adam Scorgie.

Como vocês tiveram a ideia para esse documentário?
Os caras que lucram com esse negócio têm casas bonitas, fazem muito dinheiro. E eu me toquei que seria um documentário fascinante. Eu pensei: "Vamos mostrar essa indústria em British Columbia e como ela funciona. Como essa indústria de bilhões de dólares aprendeu a sobreviver, apesar de ser ilegal?" E então, claro, o documentário cresceu quando nós começamos a fazer a pesquisa. Mas nós nunca pensamos no filme com algum objetivo de mudar leis ou as visões políticas das pessoas. Nós realmente queríamos fazer um bom filme, porque nós somos cineastas.

Mas enquanto o filme é produzido você pensa, no mínimo, no debate que ele pode criar, não?
Isso nunca foi um objetivo nosso. Nós realmente pretendíamos fazer um bom filme. Todo bom filme inspira pessoas, move alguém, faz alguém pensar nas questões. Então, quando nós entramos nessa, nós aprendemos que existiam muitos argumentos que precisavam ser explodidos. Sabe? "Nossa, nós precisamos explicar isso pras pessoas". Esse assunto da descriminalização pode ser visto na grande mídia, mas de uma maneira falsa. Eu acredito que nós fizemos um bom trabalho deixando as informações disponíveis de uma maneira divertida. E quando nós terminamos, foi como "nossa, o filme fez as pessoas questionarem suas crenças morais". Mas esse nunca foi um objetivo nosso, foi algo que aconteceu durante o processo.

Um filme brasileiro, "Quebrando o Tabu", traz um ex-presidente do Brasil, um ex-presidente da Colômbia e dois ex-presidentes dos Estados Unidos para essa discussão e eles reconhecem que a chamada "Guerra às Drogas" falhou. Você acha que esse debate está espalhado pelo mundo?
Definitivamente, está ficando maior. Porque quando nós fizemos "The Union", as pessoas ficavam impressionadas porque nós tínhamos ex-policiais falando da proibição [das drogas] no Canadá. E agora você pode ver ex-presidentes, economistas, grupos de discussão vindo à público e dizendo "o que nós estamos fazendo não está funcionando, nós temos que buscar alternativas". Todos eles dizendo "nós não sabemos exatamente o que fazer, mas não podemos continuar nesse caminho em que estamos". Isso é sensacional. É difícil dizer se "The Union" iniciou isso, mas eu definitivamente penso que contribuímos de uma pequena maneira. Pelas informações que eu tenho, eu sei que o filme foi muito bem recebido globalmente. Mas é sensacional ver o que está surgindo agora.

O que você acha que falta para mudar essa questão? É engajamento político, da sociedade, o que é?
Eu acho que há muitas coisas. Há estados onde não existe debate racional. Então, qualquer coisa que você disser, eles acham que é ruim e não vão mudar. Você não pode legislar moralidade. Não funciona. Há interesses comerciais envolvidos, moralidade, e vários políticos preocupados com seus próprios negócios. "Como serei eleito se eu defender isso?" Então, claro, eles não vão empunhar uma bandeira ao invés de fazer uma campanha que seja bem-sucedida. Claro. Eles não vão apoiar mudanças políticas. Mas em muitos casos, sejam políticos, policiais, enfim... você vê que há pessoas que têm uma boa intenção, mas externar isso tem algumas restrições. A coisa não funciona do jeito que você sonhou quando era mais novo. Mas eu acho que isso está começando a mudar. Nós podemos ver políticos inteligentes e com muita capacidade dizendo que as coisas precisam mudar. Quando fizemos o filme, nós entrevistamos alguns ex-policiais, porque você só pode discutir o assunto com quem já está aposentado. Porque policiais são mandados embora quando eles dizem: "ah, eu não acredito nessas leis sobre drogas". São demitidos. Porque você não pode receber dinheiro para lutar contra as drogas e não acreditar nas leis.

Há passagens no documentário em que vocês provam que muitas histórias sobre as drogas, trazidas para nós a vida toda, são mentiras. Por exemplo, "maconha mata neurônios". No filme, vocês mostram que é muito simples provar que isso é mentira. Por que a mídia não faz isso? Simplesmente não faz o seu trabalho e diz: "isso é mentira"?
A mídia já foi jornalística. Hoje, é comandada por patrocinadores. Então, mesmo quando tem alguém indo no caminho certo, você pode irritar seu editor, porque ele pode dizer: "você não deve ir por esse caminho na notícia, deve ir por aquele". A mídia está sob controle de certos grupos financeiros e eles têm que dar respostas para seus chefes. E muitas pessoas têm medo de assumir riscos. Dá medo ver gente [jornalistas] abrindo mão de seus sonhos. E eu acho que especialmente nessa questão da proibição é realmente frustrante, porque eles estão plantando mentira também. Mas, estamos vendo agora pessoas criando suas próprias linhas de mídia, afastados desses grandes grupos... e eles estão falando a verdade, trazendo um debate racional. Há pessoas preocupadas na mudança dessas políticas de drogas, mas há muitos outros usando a mídia em geral nesse debate de uma forma muito... ridícula. Você ouve e diz: "ahhh".

E vocês tiveram algum problema em financiar esse documentário por causa de tudo isso?
Sim, o financiamento foi super difícil porque, você sabe, a indústria de filmes também é um negócio. Então, quando você está vendendo para um distribuidor, eles podem olhar como... "ok, quantas pessoas vão ver isso?". E é um tema muito polêmico, porque são poucos países que permitiriam sequer falar sobre colocar esse assunto no ar. E aí, mesmo nesses países, a gente tem que pensar em quantos cinemas aceitariam veicular. E são todos homens de negócios. Esqueça todo o resto. Distribuidores olham e pensam: "como posso fazer dinheiro com esse produto?". Distribuidores e financiadores de filmes são muito dispersivos. Mesmo os mais divertidos da sala não querem mais explicação quando eles simplesmente não querem. É tipo: "Não quero ouvir sobre isso, não estou interessado". Então, nós não pudemos fazer "The Union" do jeito tradicional de financiamento, eu peguei um empréstimo com meu pai. Ele me emprestou US$ 250 mil [cerca de R$ 500 mil]. Graças a Deus, o filme foi muito bem e esse custo foi devolvido pra ele.

Isso é frustrante pra você? Se você quiser fazer um filme, sei lá, sobre a carreira do Michael Jordan, seria ótimo, mas não mudaria nada na sociedade, é uma biografia. Mas é difícil conseguir dinheiro para fazer um filme que queira discutir grandes questões. Isso é frustrante para você, como documentarista?
Tudo para fazer um documentário, e é isso que eu amo fazer agora, é frustrante como documentarista, porque você vê como isso é um negócio. Mas a parte interessandte que a gente pode destacar é que o interesse na contra-cultura está ficando maior. Porque "The Union" teve algum sucesso e fez dinheiro para os nossos produtores. E eles são pessoas de negócios, eles podem se importar menos com o assunto em si, mas eles pensam: "ei, a gente fez dinheiro com esse primeiro filme! Nós podemos investir no próximo, podemos fazer dinheiro com o próximo". Então, é frustrante, mas eu acho que se você vai fundo em alguma coisa, você vai ter frustrações. É assim. E essas frustrações na área de filmes podem ser péssimas, mas toda área tem seus desafios.

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