terça-feira, 24 de abril de 2012

Membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU exportam 7 de cada 10 armas do mundo

Entre importadores estão Síria, Egito, Líbia, Iêmen e Bahrein, segundo Anistia Internacional.
No último sábado (21), Conselho de Segurança aprovou envio de missão à Síria.

Raphael Prado
De Nova York

De acordo com a ONU, entre 10 mil e 15 mil pessoas morreram desde o início da rebelião contra o ditador da Líbia, Muammar Gadaffi, morto em outubro de 2011 pelos rebeldes que o capturaram. Na Síria, onde os confrontos mataram 55 pessoas somente na segunda-feira (23), também segundo a ONU, o número de mortos já supera 5 mil.

Dentro dos próprios corredores das Nações Unidas, os países-membros do Conselho de Segurança discutem ações para frear a violência decorrente dos levantes populares nos países árabes. No último sábado (21), o Conselho de Segurança aprovou o envio de 300 observadores à Síria e a necessidade de prestar apoio humanitário ao país.

Mas a conta que não fecha faz parte de uma campanha lançada pelo braço australiano da Anistia Internacional: seis países exportam 74% de todas as armas do mundo. Entre eles, os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança: Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, China e França que, somados, exportam 66,3% do armamento mundial. E para onde exportam? Países como Síria, Egito, Líbia, Iêmen e Bahrein - onde a realização da prova de abertura do torneio de 2012 da Fórmula 1 está ameaçada, justamente pela instabilidade local.

(Fonte: "Encontro Anual dos Donos do Mundo", André Dahmer)

Tratado para Comércio de Armas
Segundo a Anistia, US$ 12,2 bilhões é o valor das exportações de armas apenas pelos Estados Unidos (imagem abaixo). Em julho, as Nações Unidas se reúnem para discutir um Tratado para Comércio de Armas, que pode regulamentar para quem as armas podem ser vendidas e evitar, por exemplo, que estejam nas mãos de países sabidamente violadores de direitos humanos. "Vamos usar essa oportunidade única para manter as armas longe das mãos erradas", diz a campanha da Anistia Internacional, que pede a adesão das pessoas através de uma petição online para pressionar a decisão da ONU.

Veja no gráfico abaixo quais são os maiores exportadores de armas, quais países são abastecidos por essas armas e as estimativas de morte nesses mesmos países, em gráfico da Anistia Internacional.


segunda-feira, 23 de abril de 2012

Crime organizado está entre as 20 maiores economias do mundo, revela estudo inédito da ONU

Levantamento informa que crime gera receita de US$ 2,1 trilhão em todo o mundo.
O número equivale a 3,6% do PIB do planeta, segundo as Nações Unidas.

Raphael Prado
De Nova York

O crime organizado é uma das maiores economias do mundo e, se fosse um país, estaria entre as 20 principais potências globais. A conclusão é de um estudo inédito da UNODC, o Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime. Feito em parceria com o Banco Mundial e com base em dados de 2009, não há valores anteriores para que se faça comparação sobre o aumento ou diminuição desse valor.

De acordo com Yury Fedotov, diretor-geral do UNODC, o crime organizado é um dos maiores entraves ao cumprimento dos Objetivos do Milênio. "Esses crimes impactam todas as economias, de todos os países, mas são particularmente devastadores em países mais frágeis e vulneráveis", disse Fedotov nesta segunda-feira (23), durante discurso nas Nações Unidas.

O estudo também cita a corrupção em países em desenvolvimento como um entrave ao desenvolvimento social das regiões. "Estima-se que mais de US$ 40 bilhões seja perdido para a corrupção nos países em desenvolvimento", disse o diretor.

Outro dado vergonhoso está na manutenção dos direitos humanos dos cidadãos. "De acordo com alguns levantamentos, neste momento, 2,4 milhões de pessoas sofrem a miséria do tráfico de seres humanos, um vergonhoso crime de escravidão moderna", afirmou.

A ONU iniciou nesta segunda (23) a 21ª Sessão da Comissão de Prevenção de Crimes e Justiça Criminal para discutir o crime organizado no século 21. O chefe de gabinete do Presidente da Assembleia Geral, Mutlaq Al-Qahtani, disse em carta endereçada aos participantes da sessão que "quando somados, os tipos de crime organizado geram enormes lucros anualmente: não em milhões, não em bilhões, mas em trilhões de dólares".


Participam da sessão na ONU, em Nova York, cerca de 800 pessoas, de 111 países e 38 organizações não-governamentais. O tema principal é a violência contra migrantes, trabalhadores migrantes e suas famílias. Mas a reunião, que dura toda a semana, também discutirá a presença dos governos na segurança privada dos cidadãos, a ação de piratas marítimos, o tratamento de presos, entre outras questões.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

FBI investiga ameaça de bomba de grupo anticapitalista nos Estados Unidos, dizem ativistas

Segundo organizadores de greve geral, FBI quer informações de emails de participantes.
"Mesmo que pudéssemos colaborar, não iríamos", respondeu grupo de militantes.

Raphael Prado
De Nova York, EUA

Dois agentes do FBI, a polícia federal norte-americana, estiveram na organização do movimento "May First" na última quarta-feira (11) para investigar ameaças de bomba que teriam partido de um servidor na Itália no qual o grupo hospeda sites. As informações sobre a investigação foram postadas próprio movimento na internet. Eles ainda deixaram claro que não colaborariam com o FBI.

Segundo o "May First", "o FBI identificou os endereços de IP de um servidor da ECN, um provedor de internet progressista na Itália. Entre outras atividades, o ECN possui um servidor de emails anônimos, que pode ser usado para enviar emails que não ficam registrados", diz o comunicado. O grupo afirma que "não tem acesso ao servidor que envia emails anonimamente".

Desde fevereiro, autoridades americanas investigam mais de 50 ameaças de bombas recebidas na Universidade de Pittsburgh, no estado da Pennsylvania. Todas elas se comprovaram falsas, mas foram suficientes para causar alarme entre os cerca de 29 mil estudantes do campus. Um porta-voz da universidade disse que as investigações estão sendo conduzidas por uma força-tarefa composta pelo FBI, o Departamento de Justiça e a polícia do campus.

O "May First" é um movimento que surgiu para espalhar a ideia anticapitalista de grupos como o "Occupy Wall Street". Eles planejam uma greve geral no dia 1º de Maio - que não é feriado nos Estados Unidos, onde o Dia do Trabalho é comemorado na primeira segunda-feira de setembro. Os manifestantes esperam que neste dia ninguém vá ao trabalho, às compras ou às escolas.

No comunicado divulgado pelo grupo em que relatam a visita dos agentes do FBI, o "May First" diz que "mesmo que nós pudéssemos cooperar [com as investigações], não iríamos". Embora deixe claro que é contra manifestações violentas que utilizam a internet como fonte - e que as considera "inaceitáveis e indignas de apoio" -, o movimento acredita que "a internet foi criada para a comunicação livre e irrestrita e qualquer ameaça à privacidade, atividade ou liberdade de expressão é uma completa contradição a isso".

"Nós não iremos cooperar com nenhuma investigação sobre a identidade, atividades ou perspectivas de nenhum de nossos membros ou usuários de nossos sistemas", afirma o "May First".

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Mídia discute descriminalização de drogas de maneira ridícula, diz documentarista canadense

Raphael Prado
De Nova York, EUA

A campanha eleitoral de 2012 vem chegando e daqui a pouco começam - se já não começaram - a pular na mídia três temas que a mídia adora, porque são muito fáceis de se "discutir" de uma maneira maniqueísta: aborto, pena de morte e drogas. Na concepção de muita gente que dispara abobrinhas sobre o assunto, não há alternativa: ou você é contra ou a favor.

"The Union: The Business Behind Getting High" (O Sindicato: os negócios por trás das drogas, em tradução livre) é um filme de 2007 que tenta quebrar esses paradigmas. Anos antes de o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso entrar na discussão com "Quebrando o Tabu", filme de 2011 de Fernando Grostein Andrade, os cineastas canadenses Brett Harvey e Adam Scorgie - que também produz e apresenta o documentário - queriam responder a uma questão: como essa indústria de bilhões de dólares aprendeu a sobreviver, apesar de ser ilegal?

O pai de Scorgie era dono de uma casa noturna em British Columbia, oeste do Canadá. Lá, ele conheceu os vendedores diretos, do varejo da droga, para quem queria apenas se divertir. E através deles, acompanhou os negócios por trás dessa indústria altamente lucrativa.

Abaixo, a primeira parte do filme em português - ele está disponível na íntegra no YouTube. Neste link, em melhor definição e um único arquivo, mas sem legendas.


A quem interessa a proibição? Qual o motivo para que essa política, implementada na década de 60, seja mantida até hoje sem ter sido revista?

Um a um, os documentaristas questionam os argumentos espalhados até hoje pelas autoridades para manter a proibição. A começar do famoso "maconha mata neurônios". Provam, por exemplo, de maneira muito simples, que o estudo que levou a essa conclusão utilizou macacos de laboratórios e os obrigou a aspirar a fumaça da erva sem fornecer oxigênio. Aconteceu o que acontece com qualquer célula do corpo sem oxigênio: morte.

"Há pessoas usando a mídia em geral nesse debate de uma forma muito... ridícula", critica Scorgie. Ele acha que ainda falta muito para a sociedade avançar nessa discussão. "Há interesses comerciais envolvidos, moralidade, e vários políticos preocupados com seus próprios negócios. 'Como serei eleito se eu defender isso?'", diz.

Mas ele reconhece avanços: "Quando nós fizemos "The Union", as pessoas ficavam impressionadas porque nós tínhamos ex-policiais falando da proibição [das drogas] no Canadá. E agora você pode ver ex-presidentes, economistas, grupos de discussão vindo à público e dizendo 'o que nós estamos fazendo não está funcionando, nós temos que buscar alternativas'".

Leia abaixo entrevista que fiz por telefone com Adam Scorgie.

Como vocês tiveram a ideia para esse documentário?
Os caras que lucram com esse negócio têm casas bonitas, fazem muito dinheiro. E eu me toquei que seria um documentário fascinante. Eu pensei: "Vamos mostrar essa indústria em British Columbia e como ela funciona. Como essa indústria de bilhões de dólares aprendeu a sobreviver, apesar de ser ilegal?" E então, claro, o documentário cresceu quando nós começamos a fazer a pesquisa. Mas nós nunca pensamos no filme com algum objetivo de mudar leis ou as visões políticas das pessoas. Nós realmente queríamos fazer um bom filme, porque nós somos cineastas.

Mas enquanto o filme é produzido você pensa, no mínimo, no debate que ele pode criar, não?
Isso nunca foi um objetivo nosso. Nós realmente pretendíamos fazer um bom filme. Todo bom filme inspira pessoas, move alguém, faz alguém pensar nas questões. Então, quando nós entramos nessa, nós aprendemos que existiam muitos argumentos que precisavam ser explodidos. Sabe? "Nossa, nós precisamos explicar isso pras pessoas". Esse assunto da descriminalização pode ser visto na grande mídia, mas de uma maneira falsa. Eu acredito que nós fizemos um bom trabalho deixando as informações disponíveis de uma maneira divertida. E quando nós terminamos, foi como "nossa, o filme fez as pessoas questionarem suas crenças morais". Mas esse nunca foi um objetivo nosso, foi algo que aconteceu durante o processo.

Um filme brasileiro, "Quebrando o Tabu", traz um ex-presidente do Brasil, um ex-presidente da Colômbia e dois ex-presidentes dos Estados Unidos para essa discussão e eles reconhecem que a chamada "Guerra às Drogas" falhou. Você acha que esse debate está espalhado pelo mundo?
Definitivamente, está ficando maior. Porque quando nós fizemos "The Union", as pessoas ficavam impressionadas porque nós tínhamos ex-policiais falando da proibição [das drogas] no Canadá. E agora você pode ver ex-presidentes, economistas, grupos de discussão vindo à público e dizendo "o que nós estamos fazendo não está funcionando, nós temos que buscar alternativas". Todos eles dizendo "nós não sabemos exatamente o que fazer, mas não podemos continuar nesse caminho em que estamos". Isso é sensacional. É difícil dizer se "The Union" iniciou isso, mas eu definitivamente penso que contribuímos de uma pequena maneira. Pelas informações que eu tenho, eu sei que o filme foi muito bem recebido globalmente. Mas é sensacional ver o que está surgindo agora.

O que você acha que falta para mudar essa questão? É engajamento político, da sociedade, o que é?
Eu acho que há muitas coisas. Há estados onde não existe debate racional. Então, qualquer coisa que você disser, eles acham que é ruim e não vão mudar. Você não pode legislar moralidade. Não funciona. Há interesses comerciais envolvidos, moralidade, e vários políticos preocupados com seus próprios negócios. "Como serei eleito se eu defender isso?" Então, claro, eles não vão empunhar uma bandeira ao invés de fazer uma campanha que seja bem-sucedida. Claro. Eles não vão apoiar mudanças políticas. Mas em muitos casos, sejam políticos, policiais, enfim... você vê que há pessoas que têm uma boa intenção, mas externar isso tem algumas restrições. A coisa não funciona do jeito que você sonhou quando era mais novo. Mas eu acho que isso está começando a mudar. Nós podemos ver políticos inteligentes e com muita capacidade dizendo que as coisas precisam mudar. Quando fizemos o filme, nós entrevistamos alguns ex-policiais, porque você só pode discutir o assunto com quem já está aposentado. Porque policiais são mandados embora quando eles dizem: "ah, eu não acredito nessas leis sobre drogas". São demitidos. Porque você não pode receber dinheiro para lutar contra as drogas e não acreditar nas leis.

Há passagens no documentário em que vocês provam que muitas histórias sobre as drogas, trazidas para nós a vida toda, são mentiras. Por exemplo, "maconha mata neurônios". No filme, vocês mostram que é muito simples provar que isso é mentira. Por que a mídia não faz isso? Simplesmente não faz o seu trabalho e diz: "isso é mentira"?
A mídia já foi jornalística. Hoje, é comandada por patrocinadores. Então, mesmo quando tem alguém indo no caminho certo, você pode irritar seu editor, porque ele pode dizer: "você não deve ir por esse caminho na notícia, deve ir por aquele". A mídia está sob controle de certos grupos financeiros e eles têm que dar respostas para seus chefes. E muitas pessoas têm medo de assumir riscos. Dá medo ver gente [jornalistas] abrindo mão de seus sonhos. E eu acho que especialmente nessa questão da proibição é realmente frustrante, porque eles estão plantando mentira também. Mas, estamos vendo agora pessoas criando suas próprias linhas de mídia, afastados desses grandes grupos... e eles estão falando a verdade, trazendo um debate racional. Há pessoas preocupadas na mudança dessas políticas de drogas, mas há muitos outros usando a mídia em geral nesse debate de uma forma muito... ridícula. Você ouve e diz: "ahhh".

E vocês tiveram algum problema em financiar esse documentário por causa de tudo isso?
Sim, o financiamento foi super difícil porque, você sabe, a indústria de filmes também é um negócio. Então, quando você está vendendo para um distribuidor, eles podem olhar como... "ok, quantas pessoas vão ver isso?". E é um tema muito polêmico, porque são poucos países que permitiriam sequer falar sobre colocar esse assunto no ar. E aí, mesmo nesses países, a gente tem que pensar em quantos cinemas aceitariam veicular. E são todos homens de negócios. Esqueça todo o resto. Distribuidores olham e pensam: "como posso fazer dinheiro com esse produto?". Distribuidores e financiadores de filmes são muito dispersivos. Mesmo os mais divertidos da sala não querem mais explicação quando eles simplesmente não querem. É tipo: "Não quero ouvir sobre isso, não estou interessado". Então, nós não pudemos fazer "The Union" do jeito tradicional de financiamento, eu peguei um empréstimo com meu pai. Ele me emprestou US$ 250 mil [cerca de R$ 500 mil]. Graças a Deus, o filme foi muito bem e esse custo foi devolvido pra ele.

Isso é frustrante pra você? Se você quiser fazer um filme, sei lá, sobre a carreira do Michael Jordan, seria ótimo, mas não mudaria nada na sociedade, é uma biografia. Mas é difícil conseguir dinheiro para fazer um filme que queira discutir grandes questões. Isso é frustrante para você, como documentarista?
Tudo para fazer um documentário, e é isso que eu amo fazer agora, é frustrante como documentarista, porque você vê como isso é um negócio. Mas a parte interessandte que a gente pode destacar é que o interesse na contra-cultura está ficando maior. Porque "The Union" teve algum sucesso e fez dinheiro para os nossos produtores. E eles são pessoas de negócios, eles podem se importar menos com o assunto em si, mas eles pensam: "ei, a gente fez dinheiro com esse primeiro filme! Nós podemos investir no próximo, podemos fazer dinheiro com o próximo". Então, é frustrante, mas eu acho que se você vai fundo em alguma coisa, você vai ter frustrações. É assim. E essas frustrações na área de filmes podem ser péssimas, mas toda área tem seus desafios.

domingo, 1 de abril de 2012

No dia seguinte ao golpe, editorial da Folha elogia ação dos militares: "uma tomada de posição em favor da lei"

Capa da Folha de S.Paulo de 2 de
abril de 1964 (Foto: Reprodução)
Uma análise do passado faz muito bem para entender certas coisas do presente - e evitar repetições da mesma estupidez no futuro. Uma verificação sobre como os principais jornais do país noticiaram o golpe militar de 1964 nos permite saber muito sobre o período - e muito sobre os jornais.

Talvez seja justamente por esclarecer várias dúvidas do passado que alguns setores queiram com tanta garra enterrar a Comissão da Verdade.

Em 2 de abril de 1964, os brasileiros acordavam buscando informações sobre os desdobramentos da ação militar da véspera. Na capa da Folha de S.Paulo, em letras garrafais: "Congresso declara presidência vaga".

Em editorial, o jornal defende a ação dos militares que culminaram com a deposição de João Goulart, "para que a familia brasileira reencontre no menor prazo possivel a paz à qual tanto aspirava e o povo, livre da pregação e da ação dos comunistas que se haviam infiltrado no governo, volte a ter o direito, que lhe haviam tirado, de trabalhar em ordem e dentro da lei".

"Não houve rebelião contra a lei, mas uma tomada de posição em favor da lei", interpretam os editorialistas da Folha no dia seguinte ao golpe. "Assim se deve enxergar o movimento que empolgou o país. Representa, fora de duvida, um momento dramatico de nossa vida, que felizmente termina sem derramamento de sangue", continua.

No dia seguinte, 3 de abril, a Folha também publica um apanhado de como outros jornais noticiaram o golpe. Intitulado "Política na opinião alheia", o quadro traz as seguintes interpretações de outros seis jornais - todas elogiosas à ação dos militares.

Folha de S.Paulo de 3 de abril de 1964 traz a
reação de outros jornais ao golpe militar
(Foto: Reprodução)
Do Correio da Manhã: "A nação saiu vitoriosa com o afastamento do sr. João Goulart da presidência da República. Não era possível mais suportá-lo em consequencia de sua nefasta administração que estabelecia, em todos os setores, o tumulto e a desordem".

De O Estado de S.Paulo: "Ao levantarem-se em defesa de valores imperecíveis, os generais Mourão Filho, em Minas, e Kruel em São Paulo, sabiam perfeitamente que mais não faziam senão obedecer a um imperativo da consciência democrática da nação. E é o que empresta uma beleza sem jaça a coragem com que essas duas figuras das Forças Armadas souberam agir".

Do Jornal do Brasil: "Com ou sem renúncia escrita e expressa, o sr. João Goulart não é mais presidente da República. Bons fados o levem ao destino que lhe está reservado fora ou dentro da pátria, que ele não soube servir com grandeza".

Do Diário de São Paulo: "Poucas vezes no Brasil outro homem teria um destino maior do que o sr. Magalhães Pinto. Ele e o gen. Mourão foram os primeiros a desencadear a revolução mais necessaria e mais oportuna no Brasil, em qualquer momento. Entrou o sr. Magalhães Pinto para a história de corpo inteiro".

Do Diário de Notícias: "Podemos ter agora o que perdemos há três anos: um governo. (...) Dos escombros do governo do sr. João Goulart o Brasil ressurge e retoma o seu verdadeiro caminho, fiel à inspiração da sua própria bandeira... Ordem e Progresso".

Do Jornal do Comercio: "Repelimos o paredón, mas apoiamos a cassação dos direitos políticos, por longuíssimo prazo, dos principais artífices da devastação do Brasil. O sr. João Goulart é um dos homens mais ricos do mundo e poderá viver em paz nas pátrias que sua ideologia indica. Que viva muito feliz com os Peróns. Mas que nos deixe em paz".
A íntegra do editorial da Folha de 2 de abril de 1964, interpretando o golpe militar e intitulado "Em defesa da lei" pode ser lida no site do jornal.