sexta-feira, 30 de março de 2012

Para cada policial militar morto, tropas paulista e fluminense mataram 29 pessoas em 2011

Raphael Prado

Quando publicada em Terra Magazine a reportagem Somadas, PM do Rio e SP matam 42% mais que os países do mundo com pena de morte, uma enxurrada de comentários - alguns até violentos -, tentou discordar do conteúdo estritamente objetivo do texto: as PMs brasileiras têm altas taxas de letalidade. Essa verdade incontestável é tão sabida pelas próprias corporações que a do Rio de Janeiro até criou um Programa de Metas para tentar reduzir o índice, como a Secretaria de Segurança Pública explicou à reportagem e está descrito nos dois últimos parágrafos.

Há várias considerações a se fazer. Não é a primeira vez que escrevo sobre essa área de violência policial e índices de letalidade e as reações são quase sempre as mesmas. Vou tentar esclarecer algumas delas.

O primeiro argumento que sempre ouço é o das "realidades diferentes". "Não dá para comparar as favelas do Rio ou as ruas de São Paulo com as de Nova York", dizem os críticos. Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que em caso de confronto, não existe "realidade diferente". O criminoso do Bronx, no subúrbio de Nova York, está tão armado e com uma arma tão letal quanto o da Rocinha. Se há troca de tiros, os tiros são iguais - feitos de bala, pólvora, que matam quando entram no corpo.

Se o argumento é que a quantidade de confrontos em outros países é menor (eu não sei, seria preciso pesquisar), tudo bem. Significa que os policiais de fora enfrentam menos criminosos que os do Brasil. Mas não é essa a comparação que faz a reportagem.

O índice de letalidade das polícias mostra qual a participação dela, como agente do assassinato, no universo de pessoas mortas entre toda a população - e, portanto, considera a taxa de homicídios de cada lugar como um índice irrefutável da violência que acontece ali. E essa taxa, no Rio é de 1/9 - de cada 9 pessoas mortas pela violência, a polícia matou 1 -, em São Paulo é de 1/11 - de cada 11 assassinados por criminosos, a polícia matou um - e nos Estados Unidos é de 1/34 - de cada 34 vítimas da violência, a polícia matou um.

Ou seja, no Rio e em SP, quase 10% de todos os homicídios são cometidos pela polícia (os números estão todos no texto original). Nos Estados Unidos, essa participação de policiais nos homicídios é de menos de 3%. Portanto, ainda que os Estados Unidos tivessem o triplo da taxa de homicídios do Brasil e a polícia norte-americana matasse o triplo de indivíduos que mata atualmente, o índice continuaria sendo o mesmo.

Além disso, neste mesmo ano de 2011, em que as PMs do Rio e de SP mataram 961pessoas que "resistiram à prisão", durante todo o ano, morreram 33 policiais nos dois estados - 16 em São Paulo e 17 no Rio de Janeiro. Numa guerra, num confronto, há baixas. Matar 961 pessoas e ter 33 baixas, das duas uma: ou essas polícias têm muito boa pontaria ou elas não matam só em confronto.

É isso que a reportagem discute.

1 comentários:

  1. Não é difícil entender... acho que as pessoas só lêem os títulos e já saem cuspindo fogo...

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