sexta-feira, 30 de março de 2012

Para cada policial militar morto, tropas paulista e fluminense mataram 29 pessoas em 2011

Raphael Prado

Quando publicada em Terra Magazine a reportagem Somadas, PM do Rio e SP matam 42% mais que os países do mundo com pena de morte, uma enxurrada de comentários - alguns até violentos -, tentou discordar do conteúdo estritamente objetivo do texto: as PMs brasileiras têm altas taxas de letalidade. Essa verdade incontestável é tão sabida pelas próprias corporações que a do Rio de Janeiro até criou um Programa de Metas para tentar reduzir o índice, como a Secretaria de Segurança Pública explicou à reportagem e está descrito nos dois últimos parágrafos.

Há várias considerações a se fazer. Não é a primeira vez que escrevo sobre essa área de violência policial e índices de letalidade e as reações são quase sempre as mesmas. Vou tentar esclarecer algumas delas.

O primeiro argumento que sempre ouço é o das "realidades diferentes". "Não dá para comparar as favelas do Rio ou as ruas de São Paulo com as de Nova York", dizem os críticos. Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que em caso de confronto, não existe "realidade diferente". O criminoso do Bronx, no subúrbio de Nova York, está tão armado e com uma arma tão letal quanto o da Rocinha. Se há troca de tiros, os tiros são iguais - feitos de bala, pólvora, que matam quando entram no corpo.

Se o argumento é que a quantidade de confrontos em outros países é menor (eu não sei, seria preciso pesquisar), tudo bem. Significa que os policiais de fora enfrentam menos criminosos que os do Brasil. Mas não é essa a comparação que faz a reportagem.

O índice de letalidade das polícias mostra qual a participação dela, como agente do assassinato, no universo de pessoas mortas entre toda a população - e, portanto, considera a taxa de homicídios de cada lugar como um índice irrefutável da violência que acontece ali. E essa taxa, no Rio é de 1/9 - de cada 9 pessoas mortas pela violência, a polícia matou 1 -, em São Paulo é de 1/11 - de cada 11 assassinados por criminosos, a polícia matou um - e nos Estados Unidos é de 1/34 - de cada 34 vítimas da violência, a polícia matou um.

Ou seja, no Rio e em SP, quase 10% de todos os homicídios são cometidos pela polícia (os números estão todos no texto original). Nos Estados Unidos, essa participação de policiais nos homicídios é de menos de 3%. Portanto, ainda que os Estados Unidos tivessem o triplo da taxa de homicídios do Brasil e a polícia norte-americana matasse o triplo de indivíduos que mata atualmente, o índice continuaria sendo o mesmo.

Além disso, neste mesmo ano de 2011, em que as PMs do Rio e de SP mataram 961pessoas que "resistiram à prisão", durante todo o ano, morreram 33 policiais nos dois estados - 16 em São Paulo e 17 no Rio de Janeiro. Numa guerra, num confronto, há baixas. Matar 961 pessoas e ter 33 baixas, das duas uma: ou essas polícias têm muito boa pontaria ou elas não matam só em confronto.

É isso que a reportagem discute.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Somadas, PM do Rio e SP matam 42% mais que os países do mundo com pena de morte

Países com pena de morte executaram 676 pessoas em todo o mundo em 2011.
Apenas nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, PM matou 961 no mesmo período.



Raphael Prado
De Nova York, EUA

Relatório da Anistia Internacional
divulgado na terça-feira (27) indica
676 execuções em todo o mundo em 2011
(Foto: Divulgação)
Números divulgados nesta terça-feira (27) pela Anistia Internacional mostram que 20 países em todo o planeta executaram 676 pessoas em 2011. O dado, embora ainda distante do sonhado "mundo livre da pena de morte" pregado pela organização, mostra uma melhora na comparação com anos anteriores. Em 2002, eram 31 países os que praticavam a pena capital a prisioneiros. Segundo a Anistia, também restam 18.750 pessoas na fila da pena de morte.

No Brasil, ao contrário dos países que a Anistia Internacional acompanha, a pena capital não existe legalmente. Mas agentes do Estado são responsáveis por altas taxas de letalidade supostamente em confrontos com criminosos, os chamados "auto de resistência".

Em 2011, no Rio de Janeiro, 524 pessoas foram mortas pela Polícia Militar em todo o estado, segundo dados do Instituto de Segurança Pública, do governo fluminense. Em São Paulo, no mesmo período, foram 437 mortes, segundo a Secretaria de Segurança Pública paulista. Somadas, as estatísticas revelam que, nos dois estados mais populosos do país, 961 mortes foram cometidas por agentes do Estado em 2011 - um número 42,16% maior do que as vítimas da pena de morte em todos os países pesquisados pela Anistia Internacional. A organização não tem acesso aos números da China, que se nega a passar os dados e, segundo a instituição, podem dobrar a quantidade de execuções e, portanto, possivelmente atingir o número de mortes pelas PMs do Rio e São Paulo, apenas dois estados brasileiros.

Tropa violenta
No primeiro semestre de 2011, uma em cada cinco pessoas assassinadas na capital paulista foi morta pela PM. Dos 629 homicídios cometidos na capital, 128 registros foram feitos como "pessoas mortas em confrontos com a Polícia Militar em serviço". Esse tipo de ocorrência é um indicativo de revides da PM a ataques de criminosos ou enfrentamento em ação policial.

Em todo o Estado de São Paulo, em 2011, a Secretaria de Segurança Pública registrou 4.396 vítimas de homicídios dolosos. A PM matou outras 437 pessoas - o que dá uma proporção de um morto pela PM para cada 11,05 vítimas de assassinato no Estado. Esse índice faz da PM de São Paulo uma das tropas mais violentas do mundo.

Dados de 2009 do Departamento de Justiça dos Estados Unidos - os últimos disponíveis - indicam que a polícia americana foi responsável por 406 (http://www2.fbi.gov/ucr/cius2009/offenses/expanded_information/data/shrtable_14.html) das 14.042 mortes (http://www2.fbi.gov/ucr/cius2009/offenses/expanded_information/data/shrtable_01.html) registradas naquele ano no país - o que dá uma taxa de letalidade da polícia de um assassinato para cada 34,58 ocorridos no país.

"Em São Paulo, é uma pena de morte feita à luz do dia", critica o deputado estadual Adriano Diogo (PT), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa paulista. "Esta prática está completamente institucionalizada. Ela faz parte de uma rotina. Essa resistência seguida de morte nem é averiguada, é tida como cotidiano", afirma Diogo.

Em nota, a Polícia Militar de São Paulo respondeu que "não podemos comparar execuções legais com confrontos policiais. Esclarecemos que na última década os números de homicídios em SP decresceram em mais de 80%."

'Criminalização da pobreza'

No Rio de Janeiro, a Secretaria de Segurança Pública registrou 4.280 homicídios dolosos em 2011. Os 534 autos de resistência revelam uma taxa de letalidade da PM fluminense de uma morte para cada 9,17 vítimas de assassinato no Estado.

Na Argentina, em 2007 - também os últimos dados disponíveis -, de acordo com o Centro de Estudos Legais e Sociais, a região metropolitana de Buenos Aires (que tinha, à época, 12 milhões de habitantes) registrou 79 casos de pessoas mortas em confronto com a polícia. Neste mesmo 2007, só na capital paulista – excluídas as cidades da Grande São Paulo -, a PM registrou 203 mortes “em confronto”. Moram na cidade de São Paulo 11 milhões de habitantes.

"É um número inaceitável, mesmo que alguns casos tenham sido em confronto", defende o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio. "O perfil dessas vítimas, de qualquer cidade brasileira, não só do Rio ou de São Paulo, é o mesmo: são jovens, pobres, negros, baixíssima escolaridade, moradores de favela e periferia", afirma.

Para o deputado, a política de segurança pública no Brasil está voltada para um processo de "criminalização da pobreza". "Quando fizemos a transição da ditadura para a democracia, a política de segurança pública continuou calcada na eliminação do inimigo", afirma. "O inimigo da ditadura era o comunista, o universitário, o jornalista que era preso, torturado e morto. Hoje a lógica continua sendo do enfrentamento do inimigo. Só que hoje o inimigo é o pobre, é quem sobrou da sociedade de mercado. Continuamos tendo uma política de segurança calcada na ideia da guerra", explica o deputado.

A Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro informa que o número de ocorrências registradas como "auto de resistência" tem caído nos últimos anos - de 1.048 casos em 2009, para 855 casos em 2010 e 524 em 2011. Segundo a SSP, a redução se deve ao Programa de Metas e Acompanhamento de Resultados estabelecido pela pasta. "Vale ressaltar que o avanço do Programa de Metas a cada semestre aumenta o desafio das polícias", diz, em nota, a secretaria estadual.

Diz ainda a Secretaria: "O governo do Estado, reconhecendo a relevância do Programa de Metas para a melhoria da segurança pública, decidiu que os policiais lotados há mais de 6 meses nas áreas que bateram as metas deveriam receber gratificações pagas pelo cumprimento dos resultados. Desta forma, todos os policiais de uma área que bateram a meta e ainda tiveram a maior redução entre todas ganham R$ 3 mil ao fim do semestre. O segundo colocado, nos mesmos critérios, tem direito a R$ 2 mil. O terceiro colocado, a R$ 1.500. E todos os policiais, cujos batalhões e delegacias apenas alcançaram suas metas, têm direito a uma gratificação de R$ 1 mil".

(publicado originalmente em Terra Magazine)

2011: countries with death penalty killed 676; Police of Rio de Janeiro and Sao Paulo killed 961

Countries with death penalty executed 676 people worldwide in 2011. 
Police of Sao Paulo and Rio de Janeiro, in Brazil, killed 961 in the same period. 

Raphael Prado
From New York, USA


Amnesty International Report released on
Tuesday (27) (Photo: Amnesty International)
Amnesty International Report released on Tuesday (27) shows that 20 countries around the world executed 676 people in 2011. This number, although still far from the dreamed "world free of the death penalty" preached by the organization, shows an improvement compared to previous years. In 2002, 31 countries practiced capital punishment on prisoners. According to Amnesty, also 18,750 people are still in the line of the death penalty.

In Brazil, unlike the countries that Amnesty International monitors, capital punishment does not exist legally. But state officials are responsible for high mortality rates in supposed confrontations with criminals, so-called "proceedings against resistance."

In 2011, in Rio de Janeiro, 524 people were killed by military police throughout the state, according to the Institute of Public Security, a government agency in Rio de Janeiro. In Sao Paulo, in the same period, there were 437 deaths, according to Department of Public Security. These statistics show that in the two most populous states in Brazil, 961 deaths were committed by government agents in 2011 - 42.16% more than victims of the death penalty in all countries surveyed by Amnesty International. The organization did not have access to numbers from China, which refuses to pass data and, according to the institution, can double the number of executions and therefore possibly reach the number of deaths by military police in Rio and Sao Paulo, only two Brazilian states.

Violent troop
In the first semester of 2011, one in five people killed in the capital of Sao Paulo state was killed by police. It means that 128 records, of 629 homicides committed in the city, were registered as "people killed in clashes with the military police on duty." This kind of occurrence is an indicative of confrontation against criminals during Police action.

Throughout the state of Sao Paulo, in 2011, Department of Public Security registered 4,396 victims of murder. Police have killed 437 other people - which results in a ratio of one killed by Police in every 11.05 murder victims in the state. This index makes police of Sao Paulo one of the most violent forces in the world.

Data from Department of Justice of the United States in 2009 - the latest available - show that American police was responsible for 406 of 14,042 deaths recorded that year in the country - which results in police's fatality rate of one murder for every 34.58 occurring in the country.

"In Sao Paulo, the death sentence happens under daylight," says state Representative Adriano Diogo, chairman of Human Rights Commission of Legislative Assembly of Sao Paulo. "This practice is fully institutionalized. It is part of a routine. This 'resistance followed by death' is not even investigated, and it happens every day," added Diogo.

In a statement, Police of Sao Paulo says that "we can not compare legal executions with police action. Police still clarifies that, in last decade, the rate of homicides in Sao Paulo decreased more than 80%."

"Criminalization of poverty" 
In Rio de Janeiro, Department of Public Security recorded 4,280 homicides in 2011. The 534 records of "resistance followed by death" reveal a fatality rate of one in every 9.17 for each murder victim in the state.

In Argentina, in 2007 - also the latest data available - according to Center for Legal and Social Studies, the metropolitan area of Buenos Aires (which had at that time a population of 12 million) recorded 79 cases of people killed in a clash with police. In the same 2007, only in the state capital of Sao Paulo - excluding other cities of the metropolitan area - police reported 203 deaths "in conflict." Eleven million inhabitants live in the city of Sao Paulo.

"It's an unacceptable number, even if some cases had happened during a confrontation," says state Representative Marcelo Freixo, chairman of Human Rights Commission of Legislative Assembly of Rio. "Profile of victims, in any Brazilian city, not only Rio or Sao Paulo, is the same: they are young, poor, black, they have very low education, they are slum dwellers and from the periphery," he adds.

For the congressman, the policy of public security in Brazil is facing a process of "criminalization of poverty." "When we made the transition from dictatorship to democracy, public security policy continued to be grounded in the elimination of the enemy," he explains. "Enemy on that days was the communist, the college student, the journalist who was arrested, tortured and killed. Nowadays, this logic remains in the elimination of the enemy. But now, the enemy is the poor who are outside the market society. We continue to have a security policy grounded in the idea of war," says Freixo, who is a pre-candidate to Rio de Janeiro's mayorship in this year's election.

Department of Public Security of Rio de Janeiro reports that the number of incidents recorded as "proceedings against resistance" has decreased in recent years - from 1,048 cases in 2009 to 855 cases in 2010 and 524 in 2011. According to them, the reduction was due to "Program of Goals and Result Tracking," created by state government. "It is noteworthy that development of this program increases the challenge of the police each semester," said the state board in a statement.

Department also informs: "State government, recognizing the importance of its Program of Goals and Result Tracking to improve public safety, decided that policemen settled for more than six months in areas that hit the targets should get paid bonuses for meeting the results. Thus, all police officers who reached a goal and also had the largest reduction among all earn R$ 3,000 [around US$ 1,500] at the end of the semester. In second place on the same criteria, is entitled to R$ 2,000 [US$ 1,500]. Third-placed to R$ 1,500 [US$ 750]. And all cops and police battalions that have only achieved their goals, are entitled to a bonus of R$ 1,000 [US$ 500]."

terça-feira, 27 de março de 2012

Inspirados em insurgência árabe, militantes preparam "Primavera Americana"

Integrantes do Occupy Wall Street convocam paralisação para 1º de Maio, pedindo que trabalhadores faltem de seus empregos e crianças não sejam levadas à escola.


Raphael Prado
De Nova York, EUA

Estampas em panos e camisetas inspiram Primavera Americana, em Nova Iorque
Estampas em panos e camisetas inspiram "Primavera Americana",
em Nova York (Foto: Raphael Prado/Terra Magazine)
A madrugada desta quinta-feira (22) foi a primeira, desde a retomada do movimento anticapitalista "Occupy Wall Street", em Nova Iorque, em que não foi registrado nenhum confronto com a polícia. Passado o inverno no hemisfério norte, os integrantes do grupo voltaram a se articular desde o último sábado (17) para condenar a influência de grandes corporações e do mercado financeiro na política e na sociedade.
No primeiro dia de retomada do movimento, 6 meses após a primeira ocupação do Zuccotti Park, ocorrida em 17 de setembro, militantes foram presos por desobedecer determinação da polícia de que eles não deveriam acampar no parque. De acordo com manifestantes, foram 73 prisões - número que a polícia não confirmou.

Impedidos de continuar o protesto no sul da ilha de Manhattan, onde se concentram sedes dos principais bancos, grandes empresas e a Bolsa de Valores de Nova Iorque - na simbólica Wall Street -, eles marcharam por quase três horas pelas ruas do centro financeiro e decidiram caminhar até a Union Square, na região central da ilha, ponto de passagem de milhares de nova-iorquinos e turistas em visita à cidade. Lá, a polícia permitiu que ficassem, mas impediu a instalação de barracas.

A Union Square é um importante ponto de circulação de pessoas em Nova Iorque - 7 linhas de metrô podem ser acessadas através do parque. Como o próprio metrô, a praça está totalmente aberta ao público, 24 horas. A regra, no entanto, mudou desde a última terça-feira (20).

Policiais cercaram a Union Square durante a noite e pediam que os manifestantes saíssem do local, alegando que os cerca de 200 militantes estavam "bloqueando o trânsito de pedestres" e que a praça seria fechada para "limpeza" - que sempre ocorreu com a praça aberta. Os oficiais instalaram grades de ferro no entorno da Union Square e prenderam seis militantes que, segundo a polícia, "resistiram à prisão". Uma mulher foi jogada no chão por um policial e precisou ser retirada de ambulância.

Os policiais também apreenderam livros que eram distribuídos gratuitamente a quem se interessasse. A polícia nova-iorquina disse que se tratavam de "propriedade sem dono" e, por isso, não podiam continuar na praça. "Hoje tivemos uma grande demonstração da força da polícia", comentava o jornalista independente Tim Pool, que fica o tempo todo com o celular em punho, transmitindo pela internet o que acontece na Union Square.

Na noite de quarta-feira (21), policiais voltaram a cercar a praça. A área central foi cercada por grades de ferro, mas os manifestantes usaram as calçadas para dar três voltas no entorno do parque. Os policiais acompanhavam, pediam que ninguém sentasse no chão ou deitasse, mas não reagiram. Por volta das 2h da manhã, finalmente, houve trégua. Os militantes do Occupy Wall Street deitaram na calçada e não foram retirados pelos policiais.

Em cinco dias que Terra Magazine esteve na ocupação, a reportagem pode acompanhar manifestações culturais, artistas mostrando seus trabalhos - desde pintores que retratam a desigualdade social a músicos que cantam por uma melhor distribuição de renda. Havia grupos de discussão sobre o capitalismo e uma livraria improvisada numa mesa, a "Occupy Wall Street Library", de onde qualquer pessoa podia retirar o livro, ler e devolver depois, de graça. Foram dessa livraria os títulos levados pela polícia.

Cartaz na Union Square, em Nova York: "Vocês não podem desalojar
uma ideia cujo tempo chegou" (Foto: Raphael Prado/Terra Magazine)
A Union Square - ou "Praça da União" - é um marco da desobediência civil em Nova Iorque e tem um histórico de manifestações políticas e de trabalhadores. Em 1882, mais de 10 mil operários tomaram o local e forçaram o presidente a reconhecer o Dia do Trabalho como um feriado. Estátuas de George Washington, o primeiro presidente constitucional norte-americano e líder da independência, e de Mahatma Gandhi, pacifista indiano, estão expostas no parque.

Neste fim de inverno de 2012, em uma das esquinas da Union Square, um grupo de jovens também pintava estampas em panos que podiam ser retirados gratuitamente e anexados a mochilas ou costurados em blusas. Eles pintavam até camisetas de quem se empolgava para tirá-las no meio da praça. As imagens convocam para a "Primavera Americana". Os manifestantes do Occupy Wall Street se inspiram nos levantes árabes que tiveram início no fim de 2010 e começo de 2011 para mobilizar a sociedade na discussão sobre o capitalismo.

Integrantes do grupo estão convocando uma paralisação geral do país no 1º de Maio - que não é feriado nos Estados Unidos, onde o Dia do Trabalho é comemorado na primeira segunda-feira de setembro. Os manifestantes esperam que ninguém vá ao trabalho, às compras ou às escolas (http://maydaynyc.org/). "O 1º de Maio será um dia para que as corporações sintam financeiramente a nossa força. Precisamos parar de consumir por pelo menos um dia, porque a situação não pode continuar como está. Quanto mais nós contribuímos para os lucros, menos eles contribuem para nós", explicava a filha de palestinos Fatima Shadidi, que está com o grupo desde as primeiras ocupações, em setembro passado.

Mas, afinal, o que quer o Occupy Wall Street? Não há uma única demanda. Um dos slogans do movimento é "Nós somos os 99%", em referência aos que trabalham para o capitalismo mas não usufruem de seus lucros. "Não iremos mais tolerar a ganância e a corrupção do 1%", diz o site oficial dos manifestantes, que não têm organização centralizada. "O capitalismo simplesmente não funciona. Isso nunca foi uma democracia", defende a estudante Christina Gonzalez, neta de imigrantes mexicanos e participante do Occupy Wall Street desde o primeiro levante do movimento.

Nos próximos dias, estão programados atos por toda a cidade de Nova Iorque, mesmo em áreas mais distantes de Manhattan, como Bronx e Brooklyn. Os manifestantes querem debater o ato que esperam ser um marco na luta do movimento: o 1º de Maio que almeja parar os Estados Unidos.

(publicado originalmente em Terra Magazine)

Chegada da primavera nos EUA reanima Occupy Wall Street

Confronto entre polícia e manifestantes deixou 73 presos no sábado, de acordo com os militantes.

Raphael Prado
De Nova York, EUA


Para os padrões brasileiros, ainda não acabou o frio em Nova York: é preciso pelo menos uma blusa para sair à rua - o que já é uma grande mudança se compararmos com a média de 3ºC de duas semanas atrás. Mas a proximidade da primavera já é suficiente para que manifestantes do movimento Occupy Wall Street comecem a se reorganizar e tomar novamente as ruas do centro financeiro mundial.


Opera Mundi acompanhou o segundo dia de retomada do movimento, que completou seis meses no sábado (17/03). Nesta data em que multidões andavam bêbadas pelas ruas para comemorar o St. Patrick’s Day, os manifestantes do Occupy voltaram ao Parque Zuccotti, ao sul da ilha de Manhattan, para protestar contra o capitalismo e o mercado financeiro. Eles haviam tomado o local pela primeira vez em 17 de setembro de 2011.

Mas a polícia nova-iorquina também havia se preparado para o aniversário dos seis meses do movimento. Segundo os integrantes do Occupy, a reação diante da retomada do parque foi violenta e terminou com 73 presos. A polícia não confirma a quantidade de detidos.

Domingo (18/03), os protestos foram retomados e, pelo que indicam os manifestantes, pelo menos até o próximo inverno. Aos gritos de “Fora, polícia!” - mas sem nenhum incidente registrado - os “occupiers” voltaram e encontraram a área do parque cercada por grades. Foi quando a indignação começou.

O parque Zuccotti, ou Liberty Place, é um dos 503 POPS de Nova York (sigla em inglês para Espaço Público Privado). Funciona da seguinte maneira: quando a prefeitura cede a uma corporação o espaço para levantar um arranha-céu, ela obriga que parte do terreno seja usado para atender o público. A área vira uma praça, é de uso dos cidadãos, mas não é pública. Manifestantes do Occupy Wall Street entendem que o espaço pode ser ocupado, mas a prefeitura, não.

Cartaz dá boas-vindas aos manifestantes na Union Square, em Nova York. Praça foi ocupada
neste final de semana: "Bem-vindos ao lar, esta ocupação não está de saída" (Foto: Raphael Prado/Opera Mundi)


Caminhada
Cercada a área, restou marchar pela cidade. E nessa caminhada que levou quase quatro horas, Opera Mundi pode conhecer um pouco do perfil de quem está pedindo a mudança do sistema sócio-político-econômico mundial e entender suas mais variadas reivindicações.

A portorriquenha Ivelin Talarico tem 65 anos, três filhos e três netos. Ela é pintora e mora nos Estados Unidos desde a adolescência. “Cheguei aqui muito jovem, trabalhei como costureira para criar minha família”, conta a artista que participa do movimento desde a primeira ocupação, em setembro do ano passado. “Nós que somos imigrantes viemos em busca de um sonho de uma nova vida. Mas, primeiro, que sonho é esse? E por que ele não está disponível em todos os países?”, questiona.

Desde que decidiu entrar para o Occupy, as obras de Talarico passaram a refletir aquilo que via no movimento. “Pintei sobre um novo mundo, mas também pintei violência policial, a violência daqueles que estão aqui para nos bater e defender a manutenção desse sistema desigual”, diz. A manifestante também explica o porquê de não haver uma liderança centralizada no Occupy. “Tudo o que eles querem [os policiais] é alguém que seja o líder, porque aí eles prendem aquele que acham ser a cabeça da serpente. Por isso, se alguém pergunta, todo mundo responde: ‘Eu sou o líder’”, explica.

Crítica também frequente é a de que não há objetivos definidos para o movimento. “Isso é bobagem. Eu acho que a mídia que faz essa crítica ajudou o sistema a chegar a esse ponto”, opina a estudante Christina Gonzalez, de 25 anos. Ela acompanha o movimento desde 18 de setembro de 2011, o segundo dia de “Occupy”. “Não há só uma mensagem, são várias. É preciso ouvi-las e perceber que todas elas são legítimas. O sistema é tão complexo agora que como alguém vem cobrar de nós que a gente saiba como uma nova estrutura deve ser?”, acrescenta. Para ela, não se trata de reformar o capitalismo, mas substituí-lo.

Debora Goodman, de 50 anos, passou todo o sábado do St. Patrick’s Day com os manifestantes, participando de protestos pacíficos e manifestações culturais. Por volta das 23h, voltou para casa para recarregar a câmera. “Eu estava sentindo que alguma coisa ruim ia acontecer e queria poder registrar”, diz. No tempo em que esteve fora, a polícia retirou à força os manifestantes do parque Zuccotti.

Ela lamenta que a violência policial seja um argumento para mobilizar mais pessoas. “Preferia que o movimento crescesse pelas nossas ideias, mas também não podemos aceitar esse tipo de violência e opressão do Estado”, afirma. A aposentada critica o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg. “Essa repressão vem de cima, essa é a forma como ele atua, um cara que é doente pelo poder e acha que a polícia é o exército pessoal dele”, opina.

A luta pelo acesso universal à saúde gratuita é o que traz Goodman ao Ocuppy Wall Street. Sobrevivente de um câncer de mama, ela gostaria que todas as pessoas tivessem oportunidade de tratamento. Mas tem dúvidas se sobreviverá para ver a construção de um novo mundo. “Não é difícil, basta cada um olhar no olho do outro, apertar as mãos e fazer algo bom para todos. Mas hoje tudo gira em torno da ganância e do lucro”, lamenta.

Policiais acompanham manifestantes em marcha por Nova York, seis meses
após criação do Occupy Wall Street (Foto: Raphael Prado/Opera Mundi)


Union Square
Depois de caminhar por algumas das principais ruas do sul da ilha de Manhattan, os manifestantes votaram para onde iriam. Com o fechamento do parque pela polícia, eles decidiram que ocupariam a Union Square, uma das mais movimentadas praças de Nova York, na altura da Rua 14 com a Broadway. Ao chegarem ao local, eles se juntaram a outros militantes que já tinham passado uma noite no local.

A polícia permitiu que houvesse pernoite na praça, mas impôs regras: não seriam permitidas barracas e os ocupantes não poderiam dormir ali. “Se ficarem cansados, podem até deitar, fechar os olhos, mas alguém tem que estar consciente no grupo. Caso contrário, a polícia irá nos expulsar”, avisava na chegada um dos ativistas.

Enquanto os novos moradores da Union Square se acomodavam, outros se organizavam para comprar comida. Os mais ansiosos planejavam e convidavam “a imprensa do Brasil” a participar daquele dia que definem como um marco para o movimento: um ato gigantesco no 1º de maio. Nesta data, garante Ivelin Talarico, “tudo vai parar. E vai ser em Wall Street”.

(publicada originalmente no Opera Mundi)