segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Não há 'escalada da violência' em São Paulo; há um genocídio no Brasil - e que sempre esteve aí, aliás

Não há, nunca houve, uma "escalada da violência" em São Paulo. O que há, e sempre houve, é um índice constante, que desde 2010 se mantém estável, de uma média de 6,47 homicídios por dia na capital e na Grande São Paulo, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado.

No Brasil, mata-se mais que um massacre do Carandiru por dia: uma média de 137 mortes, contra 111 da tragédia no presídio paulista. Temos mais de um Realengo diário, embora o Realengo, pelas características que teve de um atirador contra crianças que estudavam, choque muito mais.

Estamos no terceiro lugar de um ranking da ONU que mediu os homicídios na América do Sul. Por ano, matamos mais do que se mata no Iraque ou que se matou nas guerras civis da Chechênia ou de Angola.

As manchetes diárias, portanto, de que "10 foram mortos nesta madrugada em São Paulo" - neste 5 de novembro em que escrevo foram 4 - estão dentro da média de assassinatos que a região metropolitana enfrenta desde 2010. Mas a insegurança que se sente nas ruas, claro, tudo tem a ver com a sensação de insegurança - essa, aguçada pela mídia, que nunca se interessou, em outros momentos, a mostrar que essa média é assustadora por si só, haja ou não policiais entre as vítimas.

Foi preciso que a polícia matasse um publicitário inocente e que criminosos assassinassem uma garota em Higienópolis para que esses números, que sempre estiveram por aí, chamassem a atenção da mídia e da sociedade para o genocídio que se vive no Brasil. Um genocídio que, aliás, tem cor e classe social. Enquanto de 2002 a 2010 a taxa de homicídios de brancos (que já era bem menor que a de negros) caiu de 20,6 para cada 100 mil habitantes para 15, a de negros aumentou de 30 para 35,9.

Desde que começou a chamada "guerra entre agentes de segurança e criminosos", todos os dias, o número de mortos em SP é manchete, compondo uma engrenagem que leva ao medo, que cobra ações, que gera um combate equivocado e distorcido da questão da segurança pública.

É nessas horas - em que o pânico é vendido para a população e que os dois principais partidos do país brigam (pela mídia) sobre se houve ou não oferta de uma instância para ajudar a outra - que as políticas imediatistas são postas em prática para que a população sinta que tem alguém se mexendo.

E aí, meu amigo, a corda sempre arrebenta pro lado mais fraco.

Embora a conta de "Tropa de Elite 2" (de que, num futuro não muito distante, toda a população brasileira estará atrás das grades) seja um sofisma, estamos caminhando para um modelo de encarceramento absurdo. Enquanto a população brasileira cresceu 12,5% entre 2000 e 2010, de acordo com dados do IBGE, o número de presos no Brasil nesses mesmos 10 anos saltou 113,2%, segundo dados do Infopen, do Ministério da Justiça.


Enquanto política de segurança pública for botar gente na cadeia e matar (só os que reagem - sic), ao invés de combater na fonte o problema - a causa da criminalidade nesse país rico e insuportavelmente desigual -, estaremos com um balde d'água tentando conter um incêndio na floresta amazônica. E quando as decisões sobre o que fazer ainda estão no calor de um factoide (o que diz que há "escalada da violência" num lugar que sempre foi violento), será como botar em pauta no Congresso a redução da maioridade penal sempre que um menor é flagrado cometendo um crime. Como sabemos, nessas ocasiões, o debate sempre fica comprometido.

E, nesse caso, em que falamos de combate ao crime porque "a violência em São Paulo está assustadora" - sem esclarecer que ela sempre esteve - não tem jeito: o debate também está comprometido.

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* Aqui, as médias diárias de pessoas assassinadas na Grande São Paulo, por dia, a cada trimestre (Fonte: SSP/SP)
2010/1 - 7,85
2010/2 - 6,5
2010/3 - 5,44
2010/4 - 6,38

2011/1 - 5,65
2011/2 - 6,04
2011/3 - 6,25
2011/4 - 6,6

2012/1 - 6,11
2012/2 - 7,14
2012/3 - 7,22

Média geral: 6,47

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Sob Alckmin, Polícia Militar de São Paulo mata 48,6% mais que sob Covas

Entre 2001 e 2005, na primeira gestão do atual governador, foram 2505 mortes "em confronto" com a polícia; de 96 a 2000, sob Covas, PM matou 1686


Levantamento de dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo mostra que a Polícia Militar sob o comando do atual governador Geraldo Alckmin (PSDB) matou 48,6% mais do que no período em que seu antecessor e correligionário Mário Covas (PSDB) governou o Estado. De 2001, quando Alckmin assumiu oficialmente o governo em substituição a Covas - que se tratava de um câncer -, até 2005 (inclusive), foram 2505 mortos por policiais militares registrados oficialmente como "em confronto". Na gestão anterior, quando Covas governou o Estado, entre 1996 e 2000 (inclusive) - portanto em igual período de cinco anos -, 1686 pessoas foram mortas nas mesmas condições.

O pico das mortes de 1996 a 2001 aconteceu no ano de 2003, sob a gestão Alckmin, quando foram 756 mortes "em confronto" com a polícia registradas no Estado. Como mostra o gráfico abaixo, a curva de mortes registradas nos chamados "autos de resistência" começa a subir em 2000, o último ano de Covas no comando de São Paulo, quando ele já estava debilitado, mas ainda não afastado das funções. Mesmo assim, nos anos que se seguiram, os índices de letalidade da PM nunca foram menores do que em 1996, quando as estatísticas se tornaram públicas. Naquele ano, 239 pessoas foram mortas pela PM.



Nos três primeiros anos da estatística, com Covas no governo, o número de feridos em confrontos com a polícia superava o número de mortos. Essa estatística só se repetiu em 2005, sob Alckmin. Nos demais anos, a polícia sempre matou mais em confronto do que feriu.

Pelo gráfico, também é possível observar que há um aumento acentuado de mortos pela polícia no ano seguinte que o número de PMs mortos em serviço aumenta. Foi o que aconteceu em 1996, quando 44 policiais foram mortos durante o expediente (a maior quantidade em toda a série histórica). No ano seguinte, os mortos pela PM saltaram de 371 para 524. Em 2001, foram mortos 40 PMs no ano. Em 2002, foram mortas 541 pessoas pela polícia - ante 385 do ano anterior. Neste ano de 2012, a Secretaria de Segurança Pública registrou 8 mortes de policiais durante o expediente. Os dados do terceiro trimestre ainda não estão disponíveis. Desde o começo do ano, 84 policiais militares foram mortos no Estado - o número inclui profissionais em trabalho e de folga.

Procurada, a Assessoria de Comunicação da Polícia Militar de São Paulo não respondeu a dois questionamentos do blog, feitos pela primeira vez em 9 de agosto - e reiterados outras três vezes até 9 de outubro. Os gráficos foram encaminhados com duas perguntas - que ainda permanecem sem resposta:

1) Qual a explicação para um índice tão grande de letalidade na gestão Geraldo Alckmin, especialmente em 2003, considerando que os chamados "ataques do PCC" se deram em 2006?

2) Os dados do gráfico mostram que, durante a gestão Mário Covas, era muito maior o número de oficiais feridos em serviço e, no entanto, o número de mortos em confronto com a polícia era baixo. Pode-se depreender que a PM passava por mais confrontos diretos mas, mesmo assim, matava menos nesses confrontos?

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Críticos de repórter da Bahia agem, mesmo sem perceber, com o mesmo comportamento que ela teve

Raphael Prado
Do Rio de Janeiro, RJ

Quando criei este blog, fiz uma promessa para mim mesmo: ele não seria opinativo. Primeiro porque acredito na ideia do jornalismo como retrato - que, mesmo parcial desde a escolha da pauta e das palavras no texto, é uma radiografia de um acontecimento. Caco Barcellos sempre ensinava a mim e aos demais pupilos: "o repórter reporta". Além disso, como hoje em dia todo mundo pode falar o que tem na mente - e é estimulado a isso o tempo todo pelas perguntas "O que você está pensando?" das redes sociais -, noto que vivemos numa sociedade com excesso de opiniões e a minha seria apenas mais uma desimportante delas.

Mas hoje vou sucumbir à tentação.

Meus amigos mais próximos sabem e, aos demais, revelo agora: estou escrevendo um livro sobre criminalização da pobreza. Não tenho prazo. Pode sair ainda em 2012, pode ser pra 2014, talvez só 2063. O que faço é juntar casos e mostrar como o preconceito de classe torna praticamente impossível a solução de um de nossos dramas maiores nesses tempos em que a economia (parece que) vai bem: a desigualdade social. Preconceito que vem da sociedade, do Estado (através da polícia ou da justiça) e da mídia, que o reforçam na sociedade, que pauta polícia, justiça e mídia, que reforçam na sociedade... numa bola de neve que não termina e nem terminará se não houver um basta em alguma das rodas dentadas dessa engrenagem.

Pretendo não fazer juízo de valor sobre o que ocorreu na Bahia, embora o texto, por si só, deixe claro o que penso. Para quem não sabe, a repórter entrevista dentro de uma delegacia um acusado de roubo e estupro. O jovem confessa a tentativa de roubo, mas nega, com lágrimas no rosto, que tenha tentado estuprar a vítima. "Não estuprou, mas queria estuprar", afirma a repórter. Depois, ela debocha quando o acusado confunde exame de corpo delito com exame de próstata, zombando da ignorância do garoto (o vídeo está aqui, no YouTube).

Pois bem. Em primeiro lugar, o que essa repórter faz de maneira explícita e que assustou tanta gente é feito todos os dias, nas entrelinhas que passam quase despercebidas pelo público, em grandes jornais, revistas e outras emissoras de TV. E não é exclusividade dos programas "mundo cão". Está presente quando a televisão julga - e condena - um "suspeito" ou "acusado" utilizando o termo "bandido", que é escandalosamente preconceituoso. Está no repórter que ouve a versão do policial e não se dá ao trabalho de perguntar ao acusado o seu lado da história - sob o argumento inacreditável de que "a autoridade é fonte oficial". Como se já não tivéssemos tantos casos de erros de "autoridades" ou como se ouvir todos os lados não fosse obrigação do jornalista que, nessa situação, argumenta que "o cara é 'bandido', vai mentir". Seguindo esse raciocínio, todos os criminosos presos pela polícia deveriam ir direto para a cadeia, sem chance de defesa, sem processo penal - imagine o quanto o Estado economizaria esvaziando todas as Defensorias, Tribunais e órgãos judiciais! (fique clara a ironia).

A criminalização da pobreza está quando o mais importante jornal do país vai a uma festa de periferia acompanhado da polícia para presenciar o fim da diversão onde ocorre, segundo a publicação, "livre consumo de drogas e prostituição" - que, se caracterizarem crime (porque consumo de drogas não é crime, mas sim a venda), devem realmente ser combatidos. E não só lá. Ou será que "consumo de drogas (sic) e prostituição" não acontecem na Zona Sul do Rio de Janeiro ou no Itaim Bibi, área nobre de São Paulo? Nessa mesma capa, o repórter pergunta a um DJ: "Boa parte do funk tem bastante apelo sexual e até apologia a drogas. O que você acha?". Como se esses elementos não estivessem presentes nas músicas dos Rolling Stones ou se a famosa "Overdose de Cocada/É cocada boa", de Bezerra da Silva, falasse realmente do doce feito de coco. Samba, aliás, que hoje está nas casas noturnas mais caras do país mas que já passou, décadas atrás, pelo mesmo preconceito de classe que hoje é direcionado ao funk, rap, hip hop, as músicas dos morros e favelas.

A mais importante reação sobre o que houve na Bahia partiu justamente de jornalistas baianos: um abaixo-assinado repudiando a situação e conclamando autoridades a tomarem providências - e que eu assinei. O Ministério Público Federal mexeu-se e cobrou explicações. A emissora também agiu: anunciou a demissão da repórter, como se coubesse só a ela - e não a uma equipe toda e a uma empresa de concessão pública - a transmissão do preconceito.

O que houve de reação ao caso, no entanto, chama a atenção pela forma. Comemorações pela demissão da repórter, quase tão esdrúxulas quanto o comportamento dela própria na delegacia, perpetuam justamente o que se combate por esses jornalistas que cobram mais profissionalismo dos colegas. O jornalismo-justiceiro, que ganhou até contornos de humor por parte de programas que enfiam o microfone na boca de um deputado ou senador cobrando explicações sobre polêmicas no Congresso, é um desserviço para a sociedade, que, triste e lamentavelmente, vai aos poucos se tornando mais desinformada e fascista, exigindo uma punição dura à repórter, com a mesma dose do espírito justiceiro que está exatamente em questão.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU exportam 7 de cada 10 armas do mundo

Entre importadores estão Síria, Egito, Líbia, Iêmen e Bahrein, segundo Anistia Internacional.
No último sábado (21), Conselho de Segurança aprovou envio de missão à Síria.

Raphael Prado
De Nova York

De acordo com a ONU, entre 10 mil e 15 mil pessoas morreram desde o início da rebelião contra o ditador da Líbia, Muammar Gadaffi, morto em outubro de 2011 pelos rebeldes que o capturaram. Na Síria, onde os confrontos mataram 55 pessoas somente na segunda-feira (23), também segundo a ONU, o número de mortos já supera 5 mil.

Dentro dos próprios corredores das Nações Unidas, os países-membros do Conselho de Segurança discutem ações para frear a violência decorrente dos levantes populares nos países árabes. No último sábado (21), o Conselho de Segurança aprovou o envio de 300 observadores à Síria e a necessidade de prestar apoio humanitário ao país.

Mas a conta que não fecha faz parte de uma campanha lançada pelo braço australiano da Anistia Internacional: seis países exportam 74% de todas as armas do mundo. Entre eles, os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança: Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, China e França que, somados, exportam 66,3% do armamento mundial. E para onde exportam? Países como Síria, Egito, Líbia, Iêmen e Bahrein - onde a realização da prova de abertura do torneio de 2012 da Fórmula 1 está ameaçada, justamente pela instabilidade local.

(Fonte: "Encontro Anual dos Donos do Mundo", André Dahmer)

Tratado para Comércio de Armas
Segundo a Anistia, US$ 12,2 bilhões é o valor das exportações de armas apenas pelos Estados Unidos (imagem abaixo). Em julho, as Nações Unidas se reúnem para discutir um Tratado para Comércio de Armas, que pode regulamentar para quem as armas podem ser vendidas e evitar, por exemplo, que estejam nas mãos de países sabidamente violadores de direitos humanos. "Vamos usar essa oportunidade única para manter as armas longe das mãos erradas", diz a campanha da Anistia Internacional, que pede a adesão das pessoas através de uma petição online para pressionar a decisão da ONU.

Veja no gráfico abaixo quais são os maiores exportadores de armas, quais países são abastecidos por essas armas e as estimativas de morte nesses mesmos países, em gráfico da Anistia Internacional.


segunda-feira, 23 de abril de 2012

Crime organizado está entre as 20 maiores economias do mundo, revela estudo inédito da ONU

Levantamento informa que crime gera receita de US$ 2,1 trilhão em todo o mundo.
O número equivale a 3,6% do PIB do planeta, segundo as Nações Unidas.

Raphael Prado
De Nova York

O crime organizado é uma das maiores economias do mundo e, se fosse um país, estaria entre as 20 principais potências globais. A conclusão é de um estudo inédito da UNODC, o Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime. Feito em parceria com o Banco Mundial e com base em dados de 2009, não há valores anteriores para que se faça comparação sobre o aumento ou diminuição desse valor.

De acordo com Yury Fedotov, diretor-geral do UNODC, o crime organizado é um dos maiores entraves ao cumprimento dos Objetivos do Milênio. "Esses crimes impactam todas as economias, de todos os países, mas são particularmente devastadores em países mais frágeis e vulneráveis", disse Fedotov nesta segunda-feira (23), durante discurso nas Nações Unidas.

O estudo também cita a corrupção em países em desenvolvimento como um entrave ao desenvolvimento social das regiões. "Estima-se que mais de US$ 40 bilhões seja perdido para a corrupção nos países em desenvolvimento", disse o diretor.

Outro dado vergonhoso está na manutenção dos direitos humanos dos cidadãos. "De acordo com alguns levantamentos, neste momento, 2,4 milhões de pessoas sofrem a miséria do tráfico de seres humanos, um vergonhoso crime de escravidão moderna", afirmou.

A ONU iniciou nesta segunda (23) a 21ª Sessão da Comissão de Prevenção de Crimes e Justiça Criminal para discutir o crime organizado no século 21. O chefe de gabinete do Presidente da Assembleia Geral, Mutlaq Al-Qahtani, disse em carta endereçada aos participantes da sessão que "quando somados, os tipos de crime organizado geram enormes lucros anualmente: não em milhões, não em bilhões, mas em trilhões de dólares".


Participam da sessão na ONU, em Nova York, cerca de 800 pessoas, de 111 países e 38 organizações não-governamentais. O tema principal é a violência contra migrantes, trabalhadores migrantes e suas famílias. Mas a reunião, que dura toda a semana, também discutirá a presença dos governos na segurança privada dos cidadãos, a ação de piratas marítimos, o tratamento de presos, entre outras questões.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

FBI investiga ameaça de bomba de grupo anticapitalista nos Estados Unidos, dizem ativistas

Segundo organizadores de greve geral, FBI quer informações de emails de participantes.
"Mesmo que pudéssemos colaborar, não iríamos", respondeu grupo de militantes.

Raphael Prado
De Nova York, EUA

Dois agentes do FBI, a polícia federal norte-americana, estiveram na organização do movimento "May First" na última quarta-feira (11) para investigar ameaças de bomba que teriam partido de um servidor na Itália no qual o grupo hospeda sites. As informações sobre a investigação foram postadas próprio movimento na internet. Eles ainda deixaram claro que não colaborariam com o FBI.

Segundo o "May First", "o FBI identificou os endereços de IP de um servidor da ECN, um provedor de internet progressista na Itália. Entre outras atividades, o ECN possui um servidor de emails anônimos, que pode ser usado para enviar emails que não ficam registrados", diz o comunicado. O grupo afirma que "não tem acesso ao servidor que envia emails anonimamente".

Desde fevereiro, autoridades americanas investigam mais de 50 ameaças de bombas recebidas na Universidade de Pittsburgh, no estado da Pennsylvania. Todas elas se comprovaram falsas, mas foram suficientes para causar alarme entre os cerca de 29 mil estudantes do campus. Um porta-voz da universidade disse que as investigações estão sendo conduzidas por uma força-tarefa composta pelo FBI, o Departamento de Justiça e a polícia do campus.

O "May First" é um movimento que surgiu para espalhar a ideia anticapitalista de grupos como o "Occupy Wall Street". Eles planejam uma greve geral no dia 1º de Maio - que não é feriado nos Estados Unidos, onde o Dia do Trabalho é comemorado na primeira segunda-feira de setembro. Os manifestantes esperam que neste dia ninguém vá ao trabalho, às compras ou às escolas.

No comunicado divulgado pelo grupo em que relatam a visita dos agentes do FBI, o "May First" diz que "mesmo que nós pudéssemos cooperar [com as investigações], não iríamos". Embora deixe claro que é contra manifestações violentas que utilizam a internet como fonte - e que as considera "inaceitáveis e indignas de apoio" -, o movimento acredita que "a internet foi criada para a comunicação livre e irrestrita e qualquer ameaça à privacidade, atividade ou liberdade de expressão é uma completa contradição a isso".

"Nós não iremos cooperar com nenhuma investigação sobre a identidade, atividades ou perspectivas de nenhum de nossos membros ou usuários de nossos sistemas", afirma o "May First".

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Mídia discute descriminalização de drogas de maneira ridícula, diz documentarista canadense

Raphael Prado
De Nova York, EUA

A campanha eleitoral de 2012 vem chegando e daqui a pouco começam - se já não começaram - a pular na mídia três temas que a mídia adora, porque são muito fáceis de se "discutir" de uma maneira maniqueísta: aborto, pena de morte e drogas. Na concepção de muita gente que dispara abobrinhas sobre o assunto, não há alternativa: ou você é contra ou a favor.

"The Union: The Business Behind Getting High" (O Sindicato: os negócios por trás das drogas, em tradução livre) é um filme de 2007 que tenta quebrar esses paradigmas. Anos antes de o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso entrar na discussão com "Quebrando o Tabu", filme de 2011 de Fernando Grostein Andrade, os cineastas canadenses Brett Harvey e Adam Scorgie - que também produz e apresenta o documentário - queriam responder a uma questão: como essa indústria de bilhões de dólares aprendeu a sobreviver, apesar de ser ilegal?

O pai de Scorgie era dono de uma casa noturna em British Columbia, oeste do Canadá. Lá, ele conheceu os vendedores diretos, do varejo da droga, para quem queria apenas se divertir. E através deles, acompanhou os negócios por trás dessa indústria altamente lucrativa.

Abaixo, a primeira parte do filme em português - ele está disponível na íntegra no YouTube. Neste link, em melhor definição e um único arquivo, mas sem legendas.


A quem interessa a proibição? Qual o motivo para que essa política, implementada na década de 60, seja mantida até hoje sem ter sido revista?

Um a um, os documentaristas questionam os argumentos espalhados até hoje pelas autoridades para manter a proibição. A começar do famoso "maconha mata neurônios". Provam, por exemplo, de maneira muito simples, que o estudo que levou a essa conclusão utilizou macacos de laboratórios e os obrigou a aspirar a fumaça da erva sem fornecer oxigênio. Aconteceu o que acontece com qualquer célula do corpo sem oxigênio: morte.

"Há pessoas usando a mídia em geral nesse debate de uma forma muito... ridícula", critica Scorgie. Ele acha que ainda falta muito para a sociedade avançar nessa discussão. "Há interesses comerciais envolvidos, moralidade, e vários políticos preocupados com seus próprios negócios. 'Como serei eleito se eu defender isso?'", diz.

Mas ele reconhece avanços: "Quando nós fizemos "The Union", as pessoas ficavam impressionadas porque nós tínhamos ex-policiais falando da proibição [das drogas] no Canadá. E agora você pode ver ex-presidentes, economistas, grupos de discussão vindo à público e dizendo 'o que nós estamos fazendo não está funcionando, nós temos que buscar alternativas'".

Leia abaixo entrevista que fiz por telefone com Adam Scorgie.

Como vocês tiveram a ideia para esse documentário?
Os caras que lucram com esse negócio têm casas bonitas, fazem muito dinheiro. E eu me toquei que seria um documentário fascinante. Eu pensei: "Vamos mostrar essa indústria em British Columbia e como ela funciona. Como essa indústria de bilhões de dólares aprendeu a sobreviver, apesar de ser ilegal?" E então, claro, o documentário cresceu quando nós começamos a fazer a pesquisa. Mas nós nunca pensamos no filme com algum objetivo de mudar leis ou as visões políticas das pessoas. Nós realmente queríamos fazer um bom filme, porque nós somos cineastas.

Mas enquanto o filme é produzido você pensa, no mínimo, no debate que ele pode criar, não?
Isso nunca foi um objetivo nosso. Nós realmente pretendíamos fazer um bom filme. Todo bom filme inspira pessoas, move alguém, faz alguém pensar nas questões. Então, quando nós entramos nessa, nós aprendemos que existiam muitos argumentos que precisavam ser explodidos. Sabe? "Nossa, nós precisamos explicar isso pras pessoas". Esse assunto da descriminalização pode ser visto na grande mídia, mas de uma maneira falsa. Eu acredito que nós fizemos um bom trabalho deixando as informações disponíveis de uma maneira divertida. E quando nós terminamos, foi como "nossa, o filme fez as pessoas questionarem suas crenças morais". Mas esse nunca foi um objetivo nosso, foi algo que aconteceu durante o processo.

Um filme brasileiro, "Quebrando o Tabu", traz um ex-presidente do Brasil, um ex-presidente da Colômbia e dois ex-presidentes dos Estados Unidos para essa discussão e eles reconhecem que a chamada "Guerra às Drogas" falhou. Você acha que esse debate está espalhado pelo mundo?
Definitivamente, está ficando maior. Porque quando nós fizemos "The Union", as pessoas ficavam impressionadas porque nós tínhamos ex-policiais falando da proibição [das drogas] no Canadá. E agora você pode ver ex-presidentes, economistas, grupos de discussão vindo à público e dizendo "o que nós estamos fazendo não está funcionando, nós temos que buscar alternativas". Todos eles dizendo "nós não sabemos exatamente o que fazer, mas não podemos continuar nesse caminho em que estamos". Isso é sensacional. É difícil dizer se "The Union" iniciou isso, mas eu definitivamente penso que contribuímos de uma pequena maneira. Pelas informações que eu tenho, eu sei que o filme foi muito bem recebido globalmente. Mas é sensacional ver o que está surgindo agora.

O que você acha que falta para mudar essa questão? É engajamento político, da sociedade, o que é?
Eu acho que há muitas coisas. Há estados onde não existe debate racional. Então, qualquer coisa que você disser, eles acham que é ruim e não vão mudar. Você não pode legislar moralidade. Não funciona. Há interesses comerciais envolvidos, moralidade, e vários políticos preocupados com seus próprios negócios. "Como serei eleito se eu defender isso?" Então, claro, eles não vão empunhar uma bandeira ao invés de fazer uma campanha que seja bem-sucedida. Claro. Eles não vão apoiar mudanças políticas. Mas em muitos casos, sejam políticos, policiais, enfim... você vê que há pessoas que têm uma boa intenção, mas externar isso tem algumas restrições. A coisa não funciona do jeito que você sonhou quando era mais novo. Mas eu acho que isso está começando a mudar. Nós podemos ver políticos inteligentes e com muita capacidade dizendo que as coisas precisam mudar. Quando fizemos o filme, nós entrevistamos alguns ex-policiais, porque você só pode discutir o assunto com quem já está aposentado. Porque policiais são mandados embora quando eles dizem: "ah, eu não acredito nessas leis sobre drogas". São demitidos. Porque você não pode receber dinheiro para lutar contra as drogas e não acreditar nas leis.

Há passagens no documentário em que vocês provam que muitas histórias sobre as drogas, trazidas para nós a vida toda, são mentiras. Por exemplo, "maconha mata neurônios". No filme, vocês mostram que é muito simples provar que isso é mentira. Por que a mídia não faz isso? Simplesmente não faz o seu trabalho e diz: "isso é mentira"?
A mídia já foi jornalística. Hoje, é comandada por patrocinadores. Então, mesmo quando tem alguém indo no caminho certo, você pode irritar seu editor, porque ele pode dizer: "você não deve ir por esse caminho na notícia, deve ir por aquele". A mídia está sob controle de certos grupos financeiros e eles têm que dar respostas para seus chefes. E muitas pessoas têm medo de assumir riscos. Dá medo ver gente [jornalistas] abrindo mão de seus sonhos. E eu acho que especialmente nessa questão da proibição é realmente frustrante, porque eles estão plantando mentira também. Mas, estamos vendo agora pessoas criando suas próprias linhas de mídia, afastados desses grandes grupos... e eles estão falando a verdade, trazendo um debate racional. Há pessoas preocupadas na mudança dessas políticas de drogas, mas há muitos outros usando a mídia em geral nesse debate de uma forma muito... ridícula. Você ouve e diz: "ahhh".

E vocês tiveram algum problema em financiar esse documentário por causa de tudo isso?
Sim, o financiamento foi super difícil porque, você sabe, a indústria de filmes também é um negócio. Então, quando você está vendendo para um distribuidor, eles podem olhar como... "ok, quantas pessoas vão ver isso?". E é um tema muito polêmico, porque são poucos países que permitiriam sequer falar sobre colocar esse assunto no ar. E aí, mesmo nesses países, a gente tem que pensar em quantos cinemas aceitariam veicular. E são todos homens de negócios. Esqueça todo o resto. Distribuidores olham e pensam: "como posso fazer dinheiro com esse produto?". Distribuidores e financiadores de filmes são muito dispersivos. Mesmo os mais divertidos da sala não querem mais explicação quando eles simplesmente não querem. É tipo: "Não quero ouvir sobre isso, não estou interessado". Então, nós não pudemos fazer "The Union" do jeito tradicional de financiamento, eu peguei um empréstimo com meu pai. Ele me emprestou US$ 250 mil [cerca de R$ 500 mil]. Graças a Deus, o filme foi muito bem e esse custo foi devolvido pra ele.

Isso é frustrante pra você? Se você quiser fazer um filme, sei lá, sobre a carreira do Michael Jordan, seria ótimo, mas não mudaria nada na sociedade, é uma biografia. Mas é difícil conseguir dinheiro para fazer um filme que queira discutir grandes questões. Isso é frustrante para você, como documentarista?
Tudo para fazer um documentário, e é isso que eu amo fazer agora, é frustrante como documentarista, porque você vê como isso é um negócio. Mas a parte interessandte que a gente pode destacar é que o interesse na contra-cultura está ficando maior. Porque "The Union" teve algum sucesso e fez dinheiro para os nossos produtores. E eles são pessoas de negócios, eles podem se importar menos com o assunto em si, mas eles pensam: "ei, a gente fez dinheiro com esse primeiro filme! Nós podemos investir no próximo, podemos fazer dinheiro com o próximo". Então, é frustrante, mas eu acho que se você vai fundo em alguma coisa, você vai ter frustrações. É assim. E essas frustrações na área de filmes podem ser péssimas, mas toda área tem seus desafios.

domingo, 1 de abril de 2012

No dia seguinte ao golpe, editorial da Folha elogia ação dos militares: "uma tomada de posição em favor da lei"

Capa da Folha de S.Paulo de 2 de
abril de 1964 (Foto: Reprodução)
Uma análise do passado faz muito bem para entender certas coisas do presente - e evitar repetições da mesma estupidez no futuro. Uma verificação sobre como os principais jornais do país noticiaram o golpe militar de 1964 nos permite saber muito sobre o período - e muito sobre os jornais.

Talvez seja justamente por esclarecer várias dúvidas do passado que alguns setores queiram com tanta garra enterrar a Comissão da Verdade.

Em 2 de abril de 1964, os brasileiros acordavam buscando informações sobre os desdobramentos da ação militar da véspera. Na capa da Folha de S.Paulo, em letras garrafais: "Congresso declara presidência vaga".

Em editorial, o jornal defende a ação dos militares que culminaram com a deposição de João Goulart, "para que a familia brasileira reencontre no menor prazo possivel a paz à qual tanto aspirava e o povo, livre da pregação e da ação dos comunistas que se haviam infiltrado no governo, volte a ter o direito, que lhe haviam tirado, de trabalhar em ordem e dentro da lei".

"Não houve rebelião contra a lei, mas uma tomada de posição em favor da lei", interpretam os editorialistas da Folha no dia seguinte ao golpe. "Assim se deve enxergar o movimento que empolgou o país. Representa, fora de duvida, um momento dramatico de nossa vida, que felizmente termina sem derramamento de sangue", continua.

No dia seguinte, 3 de abril, a Folha também publica um apanhado de como outros jornais noticiaram o golpe. Intitulado "Política na opinião alheia", o quadro traz as seguintes interpretações de outros seis jornais - todas elogiosas à ação dos militares.

Folha de S.Paulo de 3 de abril de 1964 traz a
reação de outros jornais ao golpe militar
(Foto: Reprodução)
Do Correio da Manhã: "A nação saiu vitoriosa com o afastamento do sr. João Goulart da presidência da República. Não era possível mais suportá-lo em consequencia de sua nefasta administração que estabelecia, em todos os setores, o tumulto e a desordem".

De O Estado de S.Paulo: "Ao levantarem-se em defesa de valores imperecíveis, os generais Mourão Filho, em Minas, e Kruel em São Paulo, sabiam perfeitamente que mais não faziam senão obedecer a um imperativo da consciência democrática da nação. E é o que empresta uma beleza sem jaça a coragem com que essas duas figuras das Forças Armadas souberam agir".

Do Jornal do Brasil: "Com ou sem renúncia escrita e expressa, o sr. João Goulart não é mais presidente da República. Bons fados o levem ao destino que lhe está reservado fora ou dentro da pátria, que ele não soube servir com grandeza".

Do Diário de São Paulo: "Poucas vezes no Brasil outro homem teria um destino maior do que o sr. Magalhães Pinto. Ele e o gen. Mourão foram os primeiros a desencadear a revolução mais necessaria e mais oportuna no Brasil, em qualquer momento. Entrou o sr. Magalhães Pinto para a história de corpo inteiro".

Do Diário de Notícias: "Podemos ter agora o que perdemos há três anos: um governo. (...) Dos escombros do governo do sr. João Goulart o Brasil ressurge e retoma o seu verdadeiro caminho, fiel à inspiração da sua própria bandeira... Ordem e Progresso".

Do Jornal do Comercio: "Repelimos o paredón, mas apoiamos a cassação dos direitos políticos, por longuíssimo prazo, dos principais artífices da devastação do Brasil. O sr. João Goulart é um dos homens mais ricos do mundo e poderá viver em paz nas pátrias que sua ideologia indica. Que viva muito feliz com os Peróns. Mas que nos deixe em paz".
A íntegra do editorial da Folha de 2 de abril de 1964, interpretando o golpe militar e intitulado "Em defesa da lei" pode ser lida no site do jornal.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Para cada policial militar morto, tropas paulista e fluminense mataram 29 pessoas em 2011

Raphael Prado

Quando publicada em Terra Magazine a reportagem Somadas, PM do Rio e SP matam 42% mais que os países do mundo com pena de morte, uma enxurrada de comentários - alguns até violentos -, tentou discordar do conteúdo estritamente objetivo do texto: as PMs brasileiras têm altas taxas de letalidade. Essa verdade incontestável é tão sabida pelas próprias corporações que a do Rio de Janeiro até criou um Programa de Metas para tentar reduzir o índice, como a Secretaria de Segurança Pública explicou à reportagem e está descrito nos dois últimos parágrafos.

Há várias considerações a se fazer. Não é a primeira vez que escrevo sobre essa área de violência policial e índices de letalidade e as reações são quase sempre as mesmas. Vou tentar esclarecer algumas delas.

O primeiro argumento que sempre ouço é o das "realidades diferentes". "Não dá para comparar as favelas do Rio ou as ruas de São Paulo com as de Nova York", dizem os críticos. Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que em caso de confronto, não existe "realidade diferente". O criminoso do Bronx, no subúrbio de Nova York, está tão armado e com uma arma tão letal quanto o da Rocinha. Se há troca de tiros, os tiros são iguais - feitos de bala, pólvora, que matam quando entram no corpo.

Se o argumento é que a quantidade de confrontos em outros países é menor (eu não sei, seria preciso pesquisar), tudo bem. Significa que os policiais de fora enfrentam menos criminosos que os do Brasil. Mas não é essa a comparação que faz a reportagem.

O índice de letalidade das polícias mostra qual a participação dela, como agente do assassinato, no universo de pessoas mortas entre toda a população - e, portanto, considera a taxa de homicídios de cada lugar como um índice irrefutável da violência que acontece ali. E essa taxa, no Rio é de 1/9 - de cada 9 pessoas mortas pela violência, a polícia matou 1 -, em São Paulo é de 1/11 - de cada 11 assassinados por criminosos, a polícia matou um - e nos Estados Unidos é de 1/34 - de cada 34 vítimas da violência, a polícia matou um.

Ou seja, no Rio e em SP, quase 10% de todos os homicídios são cometidos pela polícia (os números estão todos no texto original). Nos Estados Unidos, essa participação de policiais nos homicídios é de menos de 3%. Portanto, ainda que os Estados Unidos tivessem o triplo da taxa de homicídios do Brasil e a polícia norte-americana matasse o triplo de indivíduos que mata atualmente, o índice continuaria sendo o mesmo.

Além disso, neste mesmo ano de 2011, em que as PMs do Rio e de SP mataram 961pessoas que "resistiram à prisão", durante todo o ano, morreram 33 policiais nos dois estados - 16 em São Paulo e 17 no Rio de Janeiro. Numa guerra, num confronto, há baixas. Matar 961 pessoas e ter 33 baixas, das duas uma: ou essas polícias têm muito boa pontaria ou elas não matam só em confronto.

É isso que a reportagem discute.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Somadas, PM do Rio e SP matam 42% mais que os países do mundo com pena de morte

Países com pena de morte executaram 676 pessoas em todo o mundo em 2011.
Apenas nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, PM matou 961 no mesmo período.



Raphael Prado
De Nova York, EUA

Relatório da Anistia Internacional
divulgado na terça-feira (27) indica
676 execuções em todo o mundo em 2011
(Foto: Divulgação)
Números divulgados nesta terça-feira (27) pela Anistia Internacional mostram que 20 países em todo o planeta executaram 676 pessoas em 2011. O dado, embora ainda distante do sonhado "mundo livre da pena de morte" pregado pela organização, mostra uma melhora na comparação com anos anteriores. Em 2002, eram 31 países os que praticavam a pena capital a prisioneiros. Segundo a Anistia, também restam 18.750 pessoas na fila da pena de morte.

No Brasil, ao contrário dos países que a Anistia Internacional acompanha, a pena capital não existe legalmente. Mas agentes do Estado são responsáveis por altas taxas de letalidade supostamente em confrontos com criminosos, os chamados "auto de resistência".

Em 2011, no Rio de Janeiro, 524 pessoas foram mortas pela Polícia Militar em todo o estado, segundo dados do Instituto de Segurança Pública, do governo fluminense. Em São Paulo, no mesmo período, foram 437 mortes, segundo a Secretaria de Segurança Pública paulista. Somadas, as estatísticas revelam que, nos dois estados mais populosos do país, 961 mortes foram cometidas por agentes do Estado em 2011 - um número 42,16% maior do que as vítimas da pena de morte em todos os países pesquisados pela Anistia Internacional. A organização não tem acesso aos números da China, que se nega a passar os dados e, segundo a instituição, podem dobrar a quantidade de execuções e, portanto, possivelmente atingir o número de mortes pelas PMs do Rio e São Paulo, apenas dois estados brasileiros.

Tropa violenta
No primeiro semestre de 2011, uma em cada cinco pessoas assassinadas na capital paulista foi morta pela PM. Dos 629 homicídios cometidos na capital, 128 registros foram feitos como "pessoas mortas em confrontos com a Polícia Militar em serviço". Esse tipo de ocorrência é um indicativo de revides da PM a ataques de criminosos ou enfrentamento em ação policial.

Em todo o Estado de São Paulo, em 2011, a Secretaria de Segurança Pública registrou 4.396 vítimas de homicídios dolosos. A PM matou outras 437 pessoas - o que dá uma proporção de um morto pela PM para cada 11,05 vítimas de assassinato no Estado. Esse índice faz da PM de São Paulo uma das tropas mais violentas do mundo.

Dados de 2009 do Departamento de Justiça dos Estados Unidos - os últimos disponíveis - indicam que a polícia americana foi responsável por 406 (http://www2.fbi.gov/ucr/cius2009/offenses/expanded_information/data/shrtable_14.html) das 14.042 mortes (http://www2.fbi.gov/ucr/cius2009/offenses/expanded_information/data/shrtable_01.html) registradas naquele ano no país - o que dá uma taxa de letalidade da polícia de um assassinato para cada 34,58 ocorridos no país.

"Em São Paulo, é uma pena de morte feita à luz do dia", critica o deputado estadual Adriano Diogo (PT), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa paulista. "Esta prática está completamente institucionalizada. Ela faz parte de uma rotina. Essa resistência seguida de morte nem é averiguada, é tida como cotidiano", afirma Diogo.

Em nota, a Polícia Militar de São Paulo respondeu que "não podemos comparar execuções legais com confrontos policiais. Esclarecemos que na última década os números de homicídios em SP decresceram em mais de 80%."

'Criminalização da pobreza'

No Rio de Janeiro, a Secretaria de Segurança Pública registrou 4.280 homicídios dolosos em 2011. Os 534 autos de resistência revelam uma taxa de letalidade da PM fluminense de uma morte para cada 9,17 vítimas de assassinato no Estado.

Na Argentina, em 2007 - também os últimos dados disponíveis -, de acordo com o Centro de Estudos Legais e Sociais, a região metropolitana de Buenos Aires (que tinha, à época, 12 milhões de habitantes) registrou 79 casos de pessoas mortas em confronto com a polícia. Neste mesmo 2007, só na capital paulista – excluídas as cidades da Grande São Paulo -, a PM registrou 203 mortes “em confronto”. Moram na cidade de São Paulo 11 milhões de habitantes.

"É um número inaceitável, mesmo que alguns casos tenham sido em confronto", defende o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio. "O perfil dessas vítimas, de qualquer cidade brasileira, não só do Rio ou de São Paulo, é o mesmo: são jovens, pobres, negros, baixíssima escolaridade, moradores de favela e periferia", afirma.

Para o deputado, a política de segurança pública no Brasil está voltada para um processo de "criminalização da pobreza". "Quando fizemos a transição da ditadura para a democracia, a política de segurança pública continuou calcada na eliminação do inimigo", afirma. "O inimigo da ditadura era o comunista, o universitário, o jornalista que era preso, torturado e morto. Hoje a lógica continua sendo do enfrentamento do inimigo. Só que hoje o inimigo é o pobre, é quem sobrou da sociedade de mercado. Continuamos tendo uma política de segurança calcada na ideia da guerra", explica o deputado.

A Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro informa que o número de ocorrências registradas como "auto de resistência" tem caído nos últimos anos - de 1.048 casos em 2009, para 855 casos em 2010 e 524 em 2011. Segundo a SSP, a redução se deve ao Programa de Metas e Acompanhamento de Resultados estabelecido pela pasta. "Vale ressaltar que o avanço do Programa de Metas a cada semestre aumenta o desafio das polícias", diz, em nota, a secretaria estadual.

Diz ainda a Secretaria: "O governo do Estado, reconhecendo a relevância do Programa de Metas para a melhoria da segurança pública, decidiu que os policiais lotados há mais de 6 meses nas áreas que bateram as metas deveriam receber gratificações pagas pelo cumprimento dos resultados. Desta forma, todos os policiais de uma área que bateram a meta e ainda tiveram a maior redução entre todas ganham R$ 3 mil ao fim do semestre. O segundo colocado, nos mesmos critérios, tem direito a R$ 2 mil. O terceiro colocado, a R$ 1.500. E todos os policiais, cujos batalhões e delegacias apenas alcançaram suas metas, têm direito a uma gratificação de R$ 1 mil".

(publicado originalmente em Terra Magazine)

2011: countries with death penalty killed 676; Police of Rio de Janeiro and Sao Paulo killed 961

Countries with death penalty executed 676 people worldwide in 2011. 
Police of Sao Paulo and Rio de Janeiro, in Brazil, killed 961 in the same period. 

Raphael Prado
From New York, USA


Amnesty International Report released on
Tuesday (27) (Photo: Amnesty International)
Amnesty International Report released on Tuesday (27) shows that 20 countries around the world executed 676 people in 2011. This number, although still far from the dreamed "world free of the death penalty" preached by the organization, shows an improvement compared to previous years. In 2002, 31 countries practiced capital punishment on prisoners. According to Amnesty, also 18,750 people are still in the line of the death penalty.

In Brazil, unlike the countries that Amnesty International monitors, capital punishment does not exist legally. But state officials are responsible for high mortality rates in supposed confrontations with criminals, so-called "proceedings against resistance."

In 2011, in Rio de Janeiro, 524 people were killed by military police throughout the state, according to the Institute of Public Security, a government agency in Rio de Janeiro. In Sao Paulo, in the same period, there were 437 deaths, according to Department of Public Security. These statistics show that in the two most populous states in Brazil, 961 deaths were committed by government agents in 2011 - 42.16% more than victims of the death penalty in all countries surveyed by Amnesty International. The organization did not have access to numbers from China, which refuses to pass data and, according to the institution, can double the number of executions and therefore possibly reach the number of deaths by military police in Rio and Sao Paulo, only two Brazilian states.

Violent troop
In the first semester of 2011, one in five people killed in the capital of Sao Paulo state was killed by police. It means that 128 records, of 629 homicides committed in the city, were registered as "people killed in clashes with the military police on duty." This kind of occurrence is an indicative of confrontation against criminals during Police action.

Throughout the state of Sao Paulo, in 2011, Department of Public Security registered 4,396 victims of murder. Police have killed 437 other people - which results in a ratio of one killed by Police in every 11.05 murder victims in the state. This index makes police of Sao Paulo one of the most violent forces in the world.

Data from Department of Justice of the United States in 2009 - the latest available - show that American police was responsible for 406 of 14,042 deaths recorded that year in the country - which results in police's fatality rate of one murder for every 34.58 occurring in the country.

"In Sao Paulo, the death sentence happens under daylight," says state Representative Adriano Diogo, chairman of Human Rights Commission of Legislative Assembly of Sao Paulo. "This practice is fully institutionalized. It is part of a routine. This 'resistance followed by death' is not even investigated, and it happens every day," added Diogo.

In a statement, Police of Sao Paulo says that "we can not compare legal executions with police action. Police still clarifies that, in last decade, the rate of homicides in Sao Paulo decreased more than 80%."

"Criminalization of poverty" 
In Rio de Janeiro, Department of Public Security recorded 4,280 homicides in 2011. The 534 records of "resistance followed by death" reveal a fatality rate of one in every 9.17 for each murder victim in the state.

In Argentina, in 2007 - also the latest data available - according to Center for Legal and Social Studies, the metropolitan area of Buenos Aires (which had at that time a population of 12 million) recorded 79 cases of people killed in a clash with police. In the same 2007, only in the state capital of Sao Paulo - excluding other cities of the metropolitan area - police reported 203 deaths "in conflict." Eleven million inhabitants live in the city of Sao Paulo.

"It's an unacceptable number, even if some cases had happened during a confrontation," says state Representative Marcelo Freixo, chairman of Human Rights Commission of Legislative Assembly of Rio. "Profile of victims, in any Brazilian city, not only Rio or Sao Paulo, is the same: they are young, poor, black, they have very low education, they are slum dwellers and from the periphery," he adds.

For the congressman, the policy of public security in Brazil is facing a process of "criminalization of poverty." "When we made the transition from dictatorship to democracy, public security policy continued to be grounded in the elimination of the enemy," he explains. "Enemy on that days was the communist, the college student, the journalist who was arrested, tortured and killed. Nowadays, this logic remains in the elimination of the enemy. But now, the enemy is the poor who are outside the market society. We continue to have a security policy grounded in the idea of war," says Freixo, who is a pre-candidate to Rio de Janeiro's mayorship in this year's election.

Department of Public Security of Rio de Janeiro reports that the number of incidents recorded as "proceedings against resistance" has decreased in recent years - from 1,048 cases in 2009 to 855 cases in 2010 and 524 in 2011. According to them, the reduction was due to "Program of Goals and Result Tracking," created by state government. "It is noteworthy that development of this program increases the challenge of the police each semester," said the state board in a statement.

Department also informs: "State government, recognizing the importance of its Program of Goals and Result Tracking to improve public safety, decided that policemen settled for more than six months in areas that hit the targets should get paid bonuses for meeting the results. Thus, all police officers who reached a goal and also had the largest reduction among all earn R$ 3,000 [around US$ 1,500] at the end of the semester. In second place on the same criteria, is entitled to R$ 2,000 [US$ 1,500]. Third-placed to R$ 1,500 [US$ 750]. And all cops and police battalions that have only achieved their goals, are entitled to a bonus of R$ 1,000 [US$ 500]."

terça-feira, 27 de março de 2012

Inspirados em insurgência árabe, militantes preparam "Primavera Americana"

Integrantes do Occupy Wall Street convocam paralisação para 1º de Maio, pedindo que trabalhadores faltem de seus empregos e crianças não sejam levadas à escola.


Raphael Prado
De Nova York, EUA

Estampas em panos e camisetas inspiram Primavera Americana, em Nova Iorque
Estampas em panos e camisetas inspiram "Primavera Americana",
em Nova York (Foto: Raphael Prado/Terra Magazine)
A madrugada desta quinta-feira (22) foi a primeira, desde a retomada do movimento anticapitalista "Occupy Wall Street", em Nova Iorque, em que não foi registrado nenhum confronto com a polícia. Passado o inverno no hemisfério norte, os integrantes do grupo voltaram a se articular desde o último sábado (17) para condenar a influência de grandes corporações e do mercado financeiro na política e na sociedade.
No primeiro dia de retomada do movimento, 6 meses após a primeira ocupação do Zuccotti Park, ocorrida em 17 de setembro, militantes foram presos por desobedecer determinação da polícia de que eles não deveriam acampar no parque. De acordo com manifestantes, foram 73 prisões - número que a polícia não confirmou.

Impedidos de continuar o protesto no sul da ilha de Manhattan, onde se concentram sedes dos principais bancos, grandes empresas e a Bolsa de Valores de Nova Iorque - na simbólica Wall Street -, eles marcharam por quase três horas pelas ruas do centro financeiro e decidiram caminhar até a Union Square, na região central da ilha, ponto de passagem de milhares de nova-iorquinos e turistas em visita à cidade. Lá, a polícia permitiu que ficassem, mas impediu a instalação de barracas.

A Union Square é um importante ponto de circulação de pessoas em Nova Iorque - 7 linhas de metrô podem ser acessadas através do parque. Como o próprio metrô, a praça está totalmente aberta ao público, 24 horas. A regra, no entanto, mudou desde a última terça-feira (20).

Policiais cercaram a Union Square durante a noite e pediam que os manifestantes saíssem do local, alegando que os cerca de 200 militantes estavam "bloqueando o trânsito de pedestres" e que a praça seria fechada para "limpeza" - que sempre ocorreu com a praça aberta. Os oficiais instalaram grades de ferro no entorno da Union Square e prenderam seis militantes que, segundo a polícia, "resistiram à prisão". Uma mulher foi jogada no chão por um policial e precisou ser retirada de ambulância.

Os policiais também apreenderam livros que eram distribuídos gratuitamente a quem se interessasse. A polícia nova-iorquina disse que se tratavam de "propriedade sem dono" e, por isso, não podiam continuar na praça. "Hoje tivemos uma grande demonstração da força da polícia", comentava o jornalista independente Tim Pool, que fica o tempo todo com o celular em punho, transmitindo pela internet o que acontece na Union Square.

Na noite de quarta-feira (21), policiais voltaram a cercar a praça. A área central foi cercada por grades de ferro, mas os manifestantes usaram as calçadas para dar três voltas no entorno do parque. Os policiais acompanhavam, pediam que ninguém sentasse no chão ou deitasse, mas não reagiram. Por volta das 2h da manhã, finalmente, houve trégua. Os militantes do Occupy Wall Street deitaram na calçada e não foram retirados pelos policiais.

Em cinco dias que Terra Magazine esteve na ocupação, a reportagem pode acompanhar manifestações culturais, artistas mostrando seus trabalhos - desde pintores que retratam a desigualdade social a músicos que cantam por uma melhor distribuição de renda. Havia grupos de discussão sobre o capitalismo e uma livraria improvisada numa mesa, a "Occupy Wall Street Library", de onde qualquer pessoa podia retirar o livro, ler e devolver depois, de graça. Foram dessa livraria os títulos levados pela polícia.

Cartaz na Union Square, em Nova York: "Vocês não podem desalojar
uma ideia cujo tempo chegou" (Foto: Raphael Prado/Terra Magazine)
A Union Square - ou "Praça da União" - é um marco da desobediência civil em Nova Iorque e tem um histórico de manifestações políticas e de trabalhadores. Em 1882, mais de 10 mil operários tomaram o local e forçaram o presidente a reconhecer o Dia do Trabalho como um feriado. Estátuas de George Washington, o primeiro presidente constitucional norte-americano e líder da independência, e de Mahatma Gandhi, pacifista indiano, estão expostas no parque.

Neste fim de inverno de 2012, em uma das esquinas da Union Square, um grupo de jovens também pintava estampas em panos que podiam ser retirados gratuitamente e anexados a mochilas ou costurados em blusas. Eles pintavam até camisetas de quem se empolgava para tirá-las no meio da praça. As imagens convocam para a "Primavera Americana". Os manifestantes do Occupy Wall Street se inspiram nos levantes árabes que tiveram início no fim de 2010 e começo de 2011 para mobilizar a sociedade na discussão sobre o capitalismo.

Integrantes do grupo estão convocando uma paralisação geral do país no 1º de Maio - que não é feriado nos Estados Unidos, onde o Dia do Trabalho é comemorado na primeira segunda-feira de setembro. Os manifestantes esperam que ninguém vá ao trabalho, às compras ou às escolas (http://maydaynyc.org/). "O 1º de Maio será um dia para que as corporações sintam financeiramente a nossa força. Precisamos parar de consumir por pelo menos um dia, porque a situação não pode continuar como está. Quanto mais nós contribuímos para os lucros, menos eles contribuem para nós", explicava a filha de palestinos Fatima Shadidi, que está com o grupo desde as primeiras ocupações, em setembro passado.

Mas, afinal, o que quer o Occupy Wall Street? Não há uma única demanda. Um dos slogans do movimento é "Nós somos os 99%", em referência aos que trabalham para o capitalismo mas não usufruem de seus lucros. "Não iremos mais tolerar a ganância e a corrupção do 1%", diz o site oficial dos manifestantes, que não têm organização centralizada. "O capitalismo simplesmente não funciona. Isso nunca foi uma democracia", defende a estudante Christina Gonzalez, neta de imigrantes mexicanos e participante do Occupy Wall Street desde o primeiro levante do movimento.

Nos próximos dias, estão programados atos por toda a cidade de Nova Iorque, mesmo em áreas mais distantes de Manhattan, como Bronx e Brooklyn. Os manifestantes querem debater o ato que esperam ser um marco na luta do movimento: o 1º de Maio que almeja parar os Estados Unidos.

(publicado originalmente em Terra Magazine)

Chegada da primavera nos EUA reanima Occupy Wall Street

Confronto entre polícia e manifestantes deixou 73 presos no sábado, de acordo com os militantes.

Raphael Prado
De Nova York, EUA


Para os padrões brasileiros, ainda não acabou o frio em Nova York: é preciso pelo menos uma blusa para sair à rua - o que já é uma grande mudança se compararmos com a média de 3ºC de duas semanas atrás. Mas a proximidade da primavera já é suficiente para que manifestantes do movimento Occupy Wall Street comecem a se reorganizar e tomar novamente as ruas do centro financeiro mundial.


Opera Mundi acompanhou o segundo dia de retomada do movimento, que completou seis meses no sábado (17/03). Nesta data em que multidões andavam bêbadas pelas ruas para comemorar o St. Patrick’s Day, os manifestantes do Occupy voltaram ao Parque Zuccotti, ao sul da ilha de Manhattan, para protestar contra o capitalismo e o mercado financeiro. Eles haviam tomado o local pela primeira vez em 17 de setembro de 2011.

Mas a polícia nova-iorquina também havia se preparado para o aniversário dos seis meses do movimento. Segundo os integrantes do Occupy, a reação diante da retomada do parque foi violenta e terminou com 73 presos. A polícia não confirma a quantidade de detidos.

Domingo (18/03), os protestos foram retomados e, pelo que indicam os manifestantes, pelo menos até o próximo inverno. Aos gritos de “Fora, polícia!” - mas sem nenhum incidente registrado - os “occupiers” voltaram e encontraram a área do parque cercada por grades. Foi quando a indignação começou.

O parque Zuccotti, ou Liberty Place, é um dos 503 POPS de Nova York (sigla em inglês para Espaço Público Privado). Funciona da seguinte maneira: quando a prefeitura cede a uma corporação o espaço para levantar um arranha-céu, ela obriga que parte do terreno seja usado para atender o público. A área vira uma praça, é de uso dos cidadãos, mas não é pública. Manifestantes do Occupy Wall Street entendem que o espaço pode ser ocupado, mas a prefeitura, não.

Cartaz dá boas-vindas aos manifestantes na Union Square, em Nova York. Praça foi ocupada
neste final de semana: "Bem-vindos ao lar, esta ocupação não está de saída" (Foto: Raphael Prado/Opera Mundi)


Caminhada
Cercada a área, restou marchar pela cidade. E nessa caminhada que levou quase quatro horas, Opera Mundi pode conhecer um pouco do perfil de quem está pedindo a mudança do sistema sócio-político-econômico mundial e entender suas mais variadas reivindicações.

A portorriquenha Ivelin Talarico tem 65 anos, três filhos e três netos. Ela é pintora e mora nos Estados Unidos desde a adolescência. “Cheguei aqui muito jovem, trabalhei como costureira para criar minha família”, conta a artista que participa do movimento desde a primeira ocupação, em setembro do ano passado. “Nós que somos imigrantes viemos em busca de um sonho de uma nova vida. Mas, primeiro, que sonho é esse? E por que ele não está disponível em todos os países?”, questiona.

Desde que decidiu entrar para o Occupy, as obras de Talarico passaram a refletir aquilo que via no movimento. “Pintei sobre um novo mundo, mas também pintei violência policial, a violência daqueles que estão aqui para nos bater e defender a manutenção desse sistema desigual”, diz. A manifestante também explica o porquê de não haver uma liderança centralizada no Occupy. “Tudo o que eles querem [os policiais] é alguém que seja o líder, porque aí eles prendem aquele que acham ser a cabeça da serpente. Por isso, se alguém pergunta, todo mundo responde: ‘Eu sou o líder’”, explica.

Crítica também frequente é a de que não há objetivos definidos para o movimento. “Isso é bobagem. Eu acho que a mídia que faz essa crítica ajudou o sistema a chegar a esse ponto”, opina a estudante Christina Gonzalez, de 25 anos. Ela acompanha o movimento desde 18 de setembro de 2011, o segundo dia de “Occupy”. “Não há só uma mensagem, são várias. É preciso ouvi-las e perceber que todas elas são legítimas. O sistema é tão complexo agora que como alguém vem cobrar de nós que a gente saiba como uma nova estrutura deve ser?”, acrescenta. Para ela, não se trata de reformar o capitalismo, mas substituí-lo.

Debora Goodman, de 50 anos, passou todo o sábado do St. Patrick’s Day com os manifestantes, participando de protestos pacíficos e manifestações culturais. Por volta das 23h, voltou para casa para recarregar a câmera. “Eu estava sentindo que alguma coisa ruim ia acontecer e queria poder registrar”, diz. No tempo em que esteve fora, a polícia retirou à força os manifestantes do parque Zuccotti.

Ela lamenta que a violência policial seja um argumento para mobilizar mais pessoas. “Preferia que o movimento crescesse pelas nossas ideias, mas também não podemos aceitar esse tipo de violência e opressão do Estado”, afirma. A aposentada critica o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg. “Essa repressão vem de cima, essa é a forma como ele atua, um cara que é doente pelo poder e acha que a polícia é o exército pessoal dele”, opina.

A luta pelo acesso universal à saúde gratuita é o que traz Goodman ao Ocuppy Wall Street. Sobrevivente de um câncer de mama, ela gostaria que todas as pessoas tivessem oportunidade de tratamento. Mas tem dúvidas se sobreviverá para ver a construção de um novo mundo. “Não é difícil, basta cada um olhar no olho do outro, apertar as mãos e fazer algo bom para todos. Mas hoje tudo gira em torno da ganância e do lucro”, lamenta.

Policiais acompanham manifestantes em marcha por Nova York, seis meses
após criação do Occupy Wall Street (Foto: Raphael Prado/Opera Mundi)


Union Square
Depois de caminhar por algumas das principais ruas do sul da ilha de Manhattan, os manifestantes votaram para onde iriam. Com o fechamento do parque pela polícia, eles decidiram que ocupariam a Union Square, uma das mais movimentadas praças de Nova York, na altura da Rua 14 com a Broadway. Ao chegarem ao local, eles se juntaram a outros militantes que já tinham passado uma noite no local.

A polícia permitiu que houvesse pernoite na praça, mas impôs regras: não seriam permitidas barracas e os ocupantes não poderiam dormir ali. “Se ficarem cansados, podem até deitar, fechar os olhos, mas alguém tem que estar consciente no grupo. Caso contrário, a polícia irá nos expulsar”, avisava na chegada um dos ativistas.

Enquanto os novos moradores da Union Square se acomodavam, outros se organizavam para comprar comida. Os mais ansiosos planejavam e convidavam “a imprensa do Brasil” a participar daquele dia que definem como um marco para o movimento: um ato gigantesco no 1º de maio. Nesta data, garante Ivelin Talarico, “tudo vai parar. E vai ser em Wall Street”.

(publicada originalmente no Opera Mundi)