segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Não há 'escalada da violência' em São Paulo; há um genocídio no Brasil - e que sempre esteve aí, aliás

Não há, nunca houve, uma "escalada da violência" em São Paulo. O que há, e sempre houve, é um índice constante, que desde 2010 se mantém estável, de uma média de 6,47 homicídios por dia na capital e na Grande São Paulo, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado.

No Brasil, mata-se mais que um massacre do Carandiru por dia: uma média de 137 mortes, contra 111 da tragédia no presídio paulista. Temos mais de um Realengo diário, embora o Realengo, pelas características que teve de um atirador contra crianças que estudavam, choque muito mais.

Estamos no terceiro lugar de um ranking da ONU que mediu os homicídios na América do Sul. Por ano, matamos mais do que se mata no Iraque ou que se matou nas guerras civis da Chechênia ou de Angola.

As manchetes diárias, portanto, de que "10 foram mortos nesta madrugada em São Paulo" - neste 5 de novembro em que escrevo foram 4 - estão dentro da média de assassinatos que a região metropolitana enfrenta desde 2010. Mas a insegurança que se sente nas ruas, claro, tudo tem a ver com a sensação de insegurança - essa, aguçada pela mídia, que nunca se interessou, em outros momentos, a mostrar que essa média é assustadora por si só, haja ou não policiais entre as vítimas.

Foi preciso que a polícia matasse um publicitário inocente e que criminosos assassinassem uma garota em Higienópolis para que esses números, que sempre estiveram por aí, chamassem a atenção da mídia e da sociedade para o genocídio que se vive no Brasil. Um genocídio que, aliás, tem cor e classe social. Enquanto de 2002 a 2010 a taxa de homicídios de brancos (que já era bem menor que a de negros) caiu de 20,6 para cada 100 mil habitantes para 15, a de negros aumentou de 30 para 35,9.

Desde que começou a chamada "guerra entre agentes de segurança e criminosos", todos os dias, o número de mortos em SP é manchete, compondo uma engrenagem que leva ao medo, que cobra ações, que gera um combate equivocado e distorcido da questão da segurança pública.

É nessas horas - em que o pânico é vendido para a população e que os dois principais partidos do país brigam (pela mídia) sobre se houve ou não oferta de uma instância para ajudar a outra - que as políticas imediatistas são postas em prática para que a população sinta que tem alguém se mexendo.

E aí, meu amigo, a corda sempre arrebenta pro lado mais fraco.

Embora a conta de "Tropa de Elite 2" (de que, num futuro não muito distante, toda a população brasileira estará atrás das grades) seja um sofisma, estamos caminhando para um modelo de encarceramento absurdo. Enquanto a população brasileira cresceu 12,5% entre 2000 e 2010, de acordo com dados do IBGE, o número de presos no Brasil nesses mesmos 10 anos saltou 113,2%, segundo dados do Infopen, do Ministério da Justiça.


Enquanto política de segurança pública for botar gente na cadeia e matar (só os que reagem - sic), ao invés de combater na fonte o problema - a causa da criminalidade nesse país rico e insuportavelmente desigual -, estaremos com um balde d'água tentando conter um incêndio na floresta amazônica. E quando as decisões sobre o que fazer ainda estão no calor de um factoide (o que diz que há "escalada da violência" num lugar que sempre foi violento), será como botar em pauta no Congresso a redução da maioridade penal sempre que um menor é flagrado cometendo um crime. Como sabemos, nessas ocasiões, o debate sempre fica comprometido.

E, nesse caso, em que falamos de combate ao crime porque "a violência em São Paulo está assustadora" - sem esclarecer que ela sempre esteve - não tem jeito: o debate também está comprometido.

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* Aqui, as médias diárias de pessoas assassinadas na Grande São Paulo, por dia, a cada trimestre (Fonte: SSP/SP)
2010/1 - 7,85
2010/2 - 6,5
2010/3 - 5,44
2010/4 - 6,38

2011/1 - 5,65
2011/2 - 6,04
2011/3 - 6,25
2011/4 - 6,6

2012/1 - 6,11
2012/2 - 7,14
2012/3 - 7,22

Média geral: 6,47

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Sob Alckmin, Polícia Militar de São Paulo mata 48,6% mais que sob Covas

Entre 2001 e 2005, na primeira gestão do atual governador, foram 2505 mortes "em confronto" com a polícia; de 96 a 2000, sob Covas, PM matou 1686


Levantamento de dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo mostra que a Polícia Militar sob o comando do atual governador Geraldo Alckmin (PSDB) matou 48,6% mais do que no período em que seu antecessor e correligionário Mário Covas (PSDB) governou o Estado. De 2001, quando Alckmin assumiu oficialmente o governo em substituição a Covas - que se tratava de um câncer -, até 2005 (inclusive), foram 2505 mortos por policiais militares registrados oficialmente como "em confronto". Na gestão anterior, quando Covas governou o Estado, entre 1996 e 2000 (inclusive) - portanto em igual período de cinco anos -, 1686 pessoas foram mortas nas mesmas condições.

O pico das mortes de 1996 a 2001 aconteceu no ano de 2003, sob a gestão Alckmin, quando foram 756 mortes "em confronto" com a polícia registradas no Estado. Como mostra o gráfico abaixo, a curva de mortes registradas nos chamados "autos de resistência" começa a subir em 2000, o último ano de Covas no comando de São Paulo, quando ele já estava debilitado, mas ainda não afastado das funções. Mesmo assim, nos anos que se seguiram, os índices de letalidade da PM nunca foram menores do que em 1996, quando as estatísticas se tornaram públicas. Naquele ano, 239 pessoas foram mortas pela PM.



Nos três primeiros anos da estatística, com Covas no governo, o número de feridos em confrontos com a polícia superava o número de mortos. Essa estatística só se repetiu em 2005, sob Alckmin. Nos demais anos, a polícia sempre matou mais em confronto do que feriu.

Pelo gráfico, também é possível observar que há um aumento acentuado de mortos pela polícia no ano seguinte que o número de PMs mortos em serviço aumenta. Foi o que aconteceu em 1996, quando 44 policiais foram mortos durante o expediente (a maior quantidade em toda a série histórica). No ano seguinte, os mortos pela PM saltaram de 371 para 524. Em 2001, foram mortos 40 PMs no ano. Em 2002, foram mortas 541 pessoas pela polícia - ante 385 do ano anterior. Neste ano de 2012, a Secretaria de Segurança Pública registrou 8 mortes de policiais durante o expediente. Os dados do terceiro trimestre ainda não estão disponíveis. Desde o começo do ano, 84 policiais militares foram mortos no Estado - o número inclui profissionais em trabalho e de folga.

Procurada, a Assessoria de Comunicação da Polícia Militar de São Paulo não respondeu a dois questionamentos do blog, feitos pela primeira vez em 9 de agosto - e reiterados outras três vezes até 9 de outubro. Os gráficos foram encaminhados com duas perguntas - que ainda permanecem sem resposta:

1) Qual a explicação para um índice tão grande de letalidade na gestão Geraldo Alckmin, especialmente em 2003, considerando que os chamados "ataques do PCC" se deram em 2006?

2) Os dados do gráfico mostram que, durante a gestão Mário Covas, era muito maior o número de oficiais feridos em serviço e, no entanto, o número de mortos em confronto com a polícia era baixo. Pode-se depreender que a PM passava por mais confrontos diretos mas, mesmo assim, matava menos nesses confrontos?

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Críticos de repórter da Bahia agem, mesmo sem perceber, com o mesmo comportamento que ela teve

Raphael Prado
Do Rio de Janeiro, RJ

Quando criei este blog, fiz uma promessa para mim mesmo: ele não seria opinativo. Primeiro porque acredito na ideia do jornalismo como retrato - que, mesmo parcial desde a escolha da pauta e das palavras no texto, é uma radiografia de um acontecimento. Caco Barcellos sempre ensinava a mim e aos demais pupilos: "o repórter reporta". Além disso, como hoje em dia todo mundo pode falar o que tem na mente - e é estimulado a isso o tempo todo pelas perguntas "O que você está pensando?" das redes sociais -, noto que vivemos numa sociedade com excesso de opiniões e a minha seria apenas mais uma desimportante delas.

Mas hoje vou sucumbir à tentação.

Meus amigos mais próximos sabem e, aos demais, revelo agora: estou escrevendo um livro sobre criminalização da pobreza. Não tenho prazo. Pode sair ainda em 2012, pode ser pra 2014, talvez só 2063. O que faço é juntar casos e mostrar como o preconceito de classe torna praticamente impossível a solução de um de nossos dramas maiores nesses tempos em que a economia (parece que) vai bem: a desigualdade social. Preconceito que vem da sociedade, do Estado (através da polícia ou da justiça) e da mídia, que o reforçam na sociedade, que pauta polícia, justiça e mídia, que reforçam na sociedade... numa bola de neve que não termina e nem terminará se não houver um basta em alguma das rodas dentadas dessa engrenagem.

Pretendo não fazer juízo de valor sobre o que ocorreu na Bahia, embora o texto, por si só, deixe claro o que penso. Para quem não sabe, a repórter entrevista dentro de uma delegacia um acusado de roubo e estupro. O jovem confessa a tentativa de roubo, mas nega, com lágrimas no rosto, que tenha tentado estuprar a vítima. "Não estuprou, mas queria estuprar", afirma a repórter. Depois, ela debocha quando o acusado confunde exame de corpo delito com exame de próstata, zombando da ignorância do garoto (o vídeo está aqui, no YouTube).

Pois bem. Em primeiro lugar, o que essa repórter faz de maneira explícita e que assustou tanta gente é feito todos os dias, nas entrelinhas que passam quase despercebidas pelo público, em grandes jornais, revistas e outras emissoras de TV. E não é exclusividade dos programas "mundo cão". Está presente quando a televisão julga - e condena - um "suspeito" ou "acusado" utilizando o termo "bandido", que é escandalosamente preconceituoso. Está no repórter que ouve a versão do policial e não se dá ao trabalho de perguntar ao acusado o seu lado da história - sob o argumento inacreditável de que "a autoridade é fonte oficial". Como se já não tivéssemos tantos casos de erros de "autoridades" ou como se ouvir todos os lados não fosse obrigação do jornalista que, nessa situação, argumenta que "o cara é 'bandido', vai mentir". Seguindo esse raciocínio, todos os criminosos presos pela polícia deveriam ir direto para a cadeia, sem chance de defesa, sem processo penal - imagine o quanto o Estado economizaria esvaziando todas as Defensorias, Tribunais e órgãos judiciais! (fique clara a ironia).

A criminalização da pobreza está quando o mais importante jornal do país vai a uma festa de periferia acompanhado da polícia para presenciar o fim da diversão onde ocorre, segundo a publicação, "livre consumo de drogas e prostituição" - que, se caracterizarem crime (porque consumo de drogas não é crime, mas sim a venda), devem realmente ser combatidos. E não só lá. Ou será que "consumo de drogas (sic) e prostituição" não acontecem na Zona Sul do Rio de Janeiro ou no Itaim Bibi, área nobre de São Paulo? Nessa mesma capa, o repórter pergunta a um DJ: "Boa parte do funk tem bastante apelo sexual e até apologia a drogas. O que você acha?". Como se esses elementos não estivessem presentes nas músicas dos Rolling Stones ou se a famosa "Overdose de Cocada/É cocada boa", de Bezerra da Silva, falasse realmente do doce feito de coco. Samba, aliás, que hoje está nas casas noturnas mais caras do país mas que já passou, décadas atrás, pelo mesmo preconceito de classe que hoje é direcionado ao funk, rap, hip hop, as músicas dos morros e favelas.

A mais importante reação sobre o que houve na Bahia partiu justamente de jornalistas baianos: um abaixo-assinado repudiando a situação e conclamando autoridades a tomarem providências - e que eu assinei. O Ministério Público Federal mexeu-se e cobrou explicações. A emissora também agiu: anunciou a demissão da repórter, como se coubesse só a ela - e não a uma equipe toda e a uma empresa de concessão pública - a transmissão do preconceito.

O que houve de reação ao caso, no entanto, chama a atenção pela forma. Comemorações pela demissão da repórter, quase tão esdrúxulas quanto o comportamento dela própria na delegacia, perpetuam justamente o que se combate por esses jornalistas que cobram mais profissionalismo dos colegas. O jornalismo-justiceiro, que ganhou até contornos de humor por parte de programas que enfiam o microfone na boca de um deputado ou senador cobrando explicações sobre polêmicas no Congresso, é um desserviço para a sociedade, que, triste e lamentavelmente, vai aos poucos se tornando mais desinformada e fascista, exigindo uma punição dura à repórter, com a mesma dose do espírito justiceiro que está exatamente em questão.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU exportam 7 de cada 10 armas do mundo

Entre importadores estão Síria, Egito, Líbia, Iêmen e Bahrein, segundo Anistia Internacional.
No último sábado (21), Conselho de Segurança aprovou envio de missão à Síria.

Raphael Prado
De Nova York

De acordo com a ONU, entre 10 mil e 15 mil pessoas morreram desde o início da rebelião contra o ditador da Líbia, Muammar Gadaffi, morto em outubro de 2011 pelos rebeldes que o capturaram. Na Síria, onde os confrontos mataram 55 pessoas somente na segunda-feira (23), também segundo a ONU, o número de mortos já supera 5 mil.

Dentro dos próprios corredores das Nações Unidas, os países-membros do Conselho de Segurança discutem ações para frear a violência decorrente dos levantes populares nos países árabes. No último sábado (21), o Conselho de Segurança aprovou o envio de 300 observadores à Síria e a necessidade de prestar apoio humanitário ao país.

Mas a conta que não fecha faz parte de uma campanha lançada pelo braço australiano da Anistia Internacional: seis países exportam 74% de todas as armas do mundo. Entre eles, os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança: Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, China e França que, somados, exportam 66,3% do armamento mundial. E para onde exportam? Países como Síria, Egito, Líbia, Iêmen e Bahrein - onde a realização da prova de abertura do torneio de 2012 da Fórmula 1 está ameaçada, justamente pela instabilidade local.

(Fonte: "Encontro Anual dos Donos do Mundo", André Dahmer)

Tratado para Comércio de Armas
Segundo a Anistia, US$ 12,2 bilhões é o valor das exportações de armas apenas pelos Estados Unidos (imagem abaixo). Em julho, as Nações Unidas se reúnem para discutir um Tratado para Comércio de Armas, que pode regulamentar para quem as armas podem ser vendidas e evitar, por exemplo, que estejam nas mãos de países sabidamente violadores de direitos humanos. "Vamos usar essa oportunidade única para manter as armas longe das mãos erradas", diz a campanha da Anistia Internacional, que pede a adesão das pessoas através de uma petição online para pressionar a decisão da ONU.

Veja no gráfico abaixo quais são os maiores exportadores de armas, quais países são abastecidos por essas armas e as estimativas de morte nesses mesmos países, em gráfico da Anistia Internacional.


segunda-feira, 23 de abril de 2012

Crime organizado está entre as 20 maiores economias do mundo, revela estudo inédito da ONU

Levantamento informa que crime gera receita de US$ 2,1 trilhão em todo o mundo.
O número equivale a 3,6% do PIB do planeta, segundo as Nações Unidas.

Raphael Prado
De Nova York

O crime organizado é uma das maiores economias do mundo e, se fosse um país, estaria entre as 20 principais potências globais. A conclusão é de um estudo inédito da UNODC, o Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime. Feito em parceria com o Banco Mundial e com base em dados de 2009, não há valores anteriores para que se faça comparação sobre o aumento ou diminuição desse valor.

De acordo com Yury Fedotov, diretor-geral do UNODC, o crime organizado é um dos maiores entraves ao cumprimento dos Objetivos do Milênio. "Esses crimes impactam todas as economias, de todos os países, mas são particularmente devastadores em países mais frágeis e vulneráveis", disse Fedotov nesta segunda-feira (23), durante discurso nas Nações Unidas.

O estudo também cita a corrupção em países em desenvolvimento como um entrave ao desenvolvimento social das regiões. "Estima-se que mais de US$ 40 bilhões seja perdido para a corrupção nos países em desenvolvimento", disse o diretor.

Outro dado vergonhoso está na manutenção dos direitos humanos dos cidadãos. "De acordo com alguns levantamentos, neste momento, 2,4 milhões de pessoas sofrem a miséria do tráfico de seres humanos, um vergonhoso crime de escravidão moderna", afirmou.

A ONU iniciou nesta segunda (23) a 21ª Sessão da Comissão de Prevenção de Crimes e Justiça Criminal para discutir o crime organizado no século 21. O chefe de gabinete do Presidente da Assembleia Geral, Mutlaq Al-Qahtani, disse em carta endereçada aos participantes da sessão que "quando somados, os tipos de crime organizado geram enormes lucros anualmente: não em milhões, não em bilhões, mas em trilhões de dólares".


Participam da sessão na ONU, em Nova York, cerca de 800 pessoas, de 111 países e 38 organizações não-governamentais. O tema principal é a violência contra migrantes, trabalhadores migrantes e suas famílias. Mas a reunião, que dura toda a semana, também discutirá a presença dos governos na segurança privada dos cidadãos, a ação de piratas marítimos, o tratamento de presos, entre outras questões.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

FBI investiga ameaça de bomba de grupo anticapitalista nos Estados Unidos, dizem ativistas

Segundo organizadores de greve geral, FBI quer informações de emails de participantes.
"Mesmo que pudéssemos colaborar, não iríamos", respondeu grupo de militantes.

Raphael Prado
De Nova York, EUA

Dois agentes do FBI, a polícia federal norte-americana, estiveram na organização do movimento "May First" na última quarta-feira (11) para investigar ameaças de bomba que teriam partido de um servidor na Itália no qual o grupo hospeda sites. As informações sobre a investigação foram postadas próprio movimento na internet. Eles ainda deixaram claro que não colaborariam com o FBI.

Segundo o "May First", "o FBI identificou os endereços de IP de um servidor da ECN, um provedor de internet progressista na Itália. Entre outras atividades, o ECN possui um servidor de emails anônimos, que pode ser usado para enviar emails que não ficam registrados", diz o comunicado. O grupo afirma que "não tem acesso ao servidor que envia emails anonimamente".

Desde fevereiro, autoridades americanas investigam mais de 50 ameaças de bombas recebidas na Universidade de Pittsburgh, no estado da Pennsylvania. Todas elas se comprovaram falsas, mas foram suficientes para causar alarme entre os cerca de 29 mil estudantes do campus. Um porta-voz da universidade disse que as investigações estão sendo conduzidas por uma força-tarefa composta pelo FBI, o Departamento de Justiça e a polícia do campus.

O "May First" é um movimento que surgiu para espalhar a ideia anticapitalista de grupos como o "Occupy Wall Street". Eles planejam uma greve geral no dia 1º de Maio - que não é feriado nos Estados Unidos, onde o Dia do Trabalho é comemorado na primeira segunda-feira de setembro. Os manifestantes esperam que neste dia ninguém vá ao trabalho, às compras ou às escolas.

No comunicado divulgado pelo grupo em que relatam a visita dos agentes do FBI, o "May First" diz que "mesmo que nós pudéssemos cooperar [com as investigações], não iríamos". Embora deixe claro que é contra manifestações violentas que utilizam a internet como fonte - e que as considera "inaceitáveis e indignas de apoio" -, o movimento acredita que "a internet foi criada para a comunicação livre e irrestrita e qualquer ameaça à privacidade, atividade ou liberdade de expressão é uma completa contradição a isso".

"Nós não iremos cooperar com nenhuma investigação sobre a identidade, atividades ou perspectivas de nenhum de nossos membros ou usuários de nossos sistemas", afirma o "May First".

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Mídia discute descriminalização de drogas de maneira ridícula, diz documentarista canadense

Raphael Prado
De Nova York, EUA

A campanha eleitoral de 2012 vem chegando e daqui a pouco começam - se já não começaram - a pular na mídia três temas que a mídia adora, porque são muito fáceis de se "discutir" de uma maneira maniqueísta: aborto, pena de morte e drogas. Na concepção de muita gente que dispara abobrinhas sobre o assunto, não há alternativa: ou você é contra ou a favor.

"The Union: The Business Behind Getting High" (O Sindicato: os negócios por trás das drogas, em tradução livre) é um filme de 2007 que tenta quebrar esses paradigmas. Anos antes de o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso entrar na discussão com "Quebrando o Tabu", filme de 2011 de Fernando Grostein Andrade, os cineastas canadenses Brett Harvey e Adam Scorgie - que também produz e apresenta o documentário - queriam responder a uma questão: como essa indústria de bilhões de dólares aprendeu a sobreviver, apesar de ser ilegal?

O pai de Scorgie era dono de uma casa noturna em British Columbia, oeste do Canadá. Lá, ele conheceu os vendedores diretos, do varejo da droga, para quem queria apenas se divertir. E através deles, acompanhou os negócios por trás dessa indústria altamente lucrativa.

Abaixo, a primeira parte do filme em português - ele está disponível na íntegra no YouTube. Neste link, em melhor definição e um único arquivo, mas sem legendas.


A quem interessa a proibição? Qual o motivo para que essa política, implementada na década de 60, seja mantida até hoje sem ter sido revista?

Um a um, os documentaristas questionam os argumentos espalhados até hoje pelas autoridades para manter a proibição. A começar do famoso "maconha mata neurônios". Provam, por exemplo, de maneira muito simples, que o estudo que levou a essa conclusão utilizou macacos de laboratórios e os obrigou a aspirar a fumaça da erva sem fornecer oxigênio. Aconteceu o que acontece com qualquer célula do corpo sem oxigênio: morte.

"Há pessoas usando a mídia em geral nesse debate de uma forma muito... ridícula", critica Scorgie. Ele acha que ainda falta muito para a sociedade avançar nessa discussão. "Há interesses comerciais envolvidos, moralidade, e vários políticos preocupados com seus próprios negócios. 'Como serei eleito se eu defender isso?'", diz.

Mas ele reconhece avanços: "Quando nós fizemos "The Union", as pessoas ficavam impressionadas porque nós tínhamos ex-policiais falando da proibição [das drogas] no Canadá. E agora você pode ver ex-presidentes, economistas, grupos de discussão vindo à público e dizendo 'o que nós estamos fazendo não está funcionando, nós temos que buscar alternativas'".

Leia abaixo entrevista que fiz por telefone com Adam Scorgie.

Como vocês tiveram a ideia para esse documentário?
Os caras que lucram com esse negócio têm casas bonitas, fazem muito dinheiro. E eu me toquei que seria um documentário fascinante. Eu pensei: "Vamos mostrar essa indústria em British Columbia e como ela funciona. Como essa indústria de bilhões de dólares aprendeu a sobreviver, apesar de ser ilegal?" E então, claro, o documentário cresceu quando nós começamos a fazer a pesquisa. Mas nós nunca pensamos no filme com algum objetivo de mudar leis ou as visões políticas das pessoas. Nós realmente queríamos fazer um bom filme, porque nós somos cineastas.

Mas enquanto o filme é produzido você pensa, no mínimo, no debate que ele pode criar, não?
Isso nunca foi um objetivo nosso. Nós realmente pretendíamos fazer um bom filme. Todo bom filme inspira pessoas, move alguém, faz alguém pensar nas questões. Então, quando nós entramos nessa, nós aprendemos que existiam muitos argumentos que precisavam ser explodidos. Sabe? "Nossa, nós precisamos explicar isso pras pessoas". Esse assunto da descriminalização pode ser visto na grande mídia, mas de uma maneira falsa. Eu acredito que nós fizemos um bom trabalho deixando as informações disponíveis de uma maneira divertida. E quando nós terminamos, foi como "nossa, o filme fez as pessoas questionarem suas crenças morais". Mas esse nunca foi um objetivo nosso, foi algo que aconteceu durante o processo.

Um filme brasileiro, "Quebrando o Tabu", traz um ex-presidente do Brasil, um ex-presidente da Colômbia e dois ex-presidentes dos Estados Unidos para essa discussão e eles reconhecem que a chamada "Guerra às Drogas" falhou. Você acha que esse debate está espalhado pelo mundo?
Definitivamente, está ficando maior. Porque quando nós fizemos "The Union", as pessoas ficavam impressionadas porque nós tínhamos ex-policiais falando da proibição [das drogas] no Canadá. E agora você pode ver ex-presidentes, economistas, grupos de discussão vindo à público e dizendo "o que nós estamos fazendo não está funcionando, nós temos que buscar alternativas". Todos eles dizendo "nós não sabemos exatamente o que fazer, mas não podemos continuar nesse caminho em que estamos". Isso é sensacional. É difícil dizer se "The Union" iniciou isso, mas eu definitivamente penso que contribuímos de uma pequena maneira. Pelas informações que eu tenho, eu sei que o filme foi muito bem recebido globalmente. Mas é sensacional ver o que está surgindo agora.

O que você acha que falta para mudar essa questão? É engajamento político, da sociedade, o que é?
Eu acho que há muitas coisas. Há estados onde não existe debate racional. Então, qualquer coisa que você disser, eles acham que é ruim e não vão mudar. Você não pode legislar moralidade. Não funciona. Há interesses comerciais envolvidos, moralidade, e vários políticos preocupados com seus próprios negócios. "Como serei eleito se eu defender isso?" Então, claro, eles não vão empunhar uma bandeira ao invés de fazer uma campanha que seja bem-sucedida. Claro. Eles não vão apoiar mudanças políticas. Mas em muitos casos, sejam políticos, policiais, enfim... você vê que há pessoas que têm uma boa intenção, mas externar isso tem algumas restrições. A coisa não funciona do jeito que você sonhou quando era mais novo. Mas eu acho que isso está começando a mudar. Nós podemos ver políticos inteligentes e com muita capacidade dizendo que as coisas precisam mudar. Quando fizemos o filme, nós entrevistamos alguns ex-policiais, porque você só pode discutir o assunto com quem já está aposentado. Porque policiais são mandados embora quando eles dizem: "ah, eu não acredito nessas leis sobre drogas". São demitidos. Porque você não pode receber dinheiro para lutar contra as drogas e não acreditar nas leis.

Há passagens no documentário em que vocês provam que muitas histórias sobre as drogas, trazidas para nós a vida toda, são mentiras. Por exemplo, "maconha mata neurônios". No filme, vocês mostram que é muito simples provar que isso é mentira. Por que a mídia não faz isso? Simplesmente não faz o seu trabalho e diz: "isso é mentira"?
A mídia já foi jornalística. Hoje, é comandada por patrocinadores. Então, mesmo quando tem alguém indo no caminho certo, você pode irritar seu editor, porque ele pode dizer: "você não deve ir por esse caminho na notícia, deve ir por aquele". A mídia está sob controle de certos grupos financeiros e eles têm que dar respostas para seus chefes. E muitas pessoas têm medo de assumir riscos. Dá medo ver gente [jornalistas] abrindo mão de seus sonhos. E eu acho que especialmente nessa questão da proibição é realmente frustrante, porque eles estão plantando mentira também. Mas, estamos vendo agora pessoas criando suas próprias linhas de mídia, afastados desses grandes grupos... e eles estão falando a verdade, trazendo um debate racional. Há pessoas preocupadas na mudança dessas políticas de drogas, mas há muitos outros usando a mídia em geral nesse debate de uma forma muito... ridícula. Você ouve e diz: "ahhh".

E vocês tiveram algum problema em financiar esse documentário por causa de tudo isso?
Sim, o financiamento foi super difícil porque, você sabe, a indústria de filmes também é um negócio. Então, quando você está vendendo para um distribuidor, eles podem olhar como... "ok, quantas pessoas vão ver isso?". E é um tema muito polêmico, porque são poucos países que permitiriam sequer falar sobre colocar esse assunto no ar. E aí, mesmo nesses países, a gente tem que pensar em quantos cinemas aceitariam veicular. E são todos homens de negócios. Esqueça todo o resto. Distribuidores olham e pensam: "como posso fazer dinheiro com esse produto?". Distribuidores e financiadores de filmes são muito dispersivos. Mesmo os mais divertidos da sala não querem mais explicação quando eles simplesmente não querem. É tipo: "Não quero ouvir sobre isso, não estou interessado". Então, nós não pudemos fazer "The Union" do jeito tradicional de financiamento, eu peguei um empréstimo com meu pai. Ele me emprestou US$ 250 mil [cerca de R$ 500 mil]. Graças a Deus, o filme foi muito bem e esse custo foi devolvido pra ele.

Isso é frustrante pra você? Se você quiser fazer um filme, sei lá, sobre a carreira do Michael Jordan, seria ótimo, mas não mudaria nada na sociedade, é uma biografia. Mas é difícil conseguir dinheiro para fazer um filme que queira discutir grandes questões. Isso é frustrante para você, como documentarista?
Tudo para fazer um documentário, e é isso que eu amo fazer agora, é frustrante como documentarista, porque você vê como isso é um negócio. Mas a parte interessandte que a gente pode destacar é que o interesse na contra-cultura está ficando maior. Porque "The Union" teve algum sucesso e fez dinheiro para os nossos produtores. E eles são pessoas de negócios, eles podem se importar menos com o assunto em si, mas eles pensam: "ei, a gente fez dinheiro com esse primeiro filme! Nós podemos investir no próximo, podemos fazer dinheiro com o próximo". Então, é frustrante, mas eu acho que se você vai fundo em alguma coisa, você vai ter frustrações. É assim. E essas frustrações na área de filmes podem ser péssimas, mas toda área tem seus desafios.